Economia

A odisseia africana por 35.975 quilómetros e 27 países de Carlos e Ana Oliveira aos comandos de uma Ford Raptor

24 jan 2026 13:00

No rasto dos exploradores do século XIX, leirienses repetem feito de Serpa Pinto no século XXI, na viagem de uma vida que levou pai e filha através de um continente

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Jacinto Silva Duro

O empresário leiriense Carlos Oliveira ao volante de uma pickup Ford Raptor ligou a capital de Angola a Leiria, com passagem por Maputo (Moçambique) e Cidade do Cabo (África do Sul).

Na companhia da filha Ana Oliveira, que assumiu funções de navegadora, saíram de Luanda a 6 de Junho e chegaram a Leiria a 3 de Novembro do ano passado, concluindo a aventura de uma vida: a Ford Performance Transafricana 2025.

Regressaram com histórias sobre gorilas solitários, sobre gente simples, mas de coração generoso, horizontes infinitos plenos de beleza, a saudade e a vontade de partir de novo, quando se chega ao fim de um empreendimento como este.

A aventura foi retratada por Ana na rede social Instagram aqui

Expedição em três actos

A viagem foi dividida em três partes distintas. Primeira etapa (6 de Junho a 2 de Julho): Luanda-Maputo, seguindo a rota dos exploradores pelo chamado Mapa Cor-de-Rosa — 9.380 quilómetros percorridos.

Segunda etapa (1 de Agosto a 2 de Setembro): Maputo-Luanda, refazendo a rota das Descobertas em sentido inverso, com Carlos, Ana e Tetiana — 12.287 quilómetros.

Terceira etapa (16 de Setembro a 3 de Novembro): Luanda-Leiria, novamente pela rota das Descobertas ao contrário, apenas com Carlos e Ana — 14.308 quilómetros.

No total, foram 35.975 quilómetros percorridos, 702 horas de condução, 104 dias de estrada, 27 países atravessados e 4.892 litros de gasolina consumidos. O hotel mais barato custou 3,9 euros por quarto.


Inspiração nos exploradores portugueses


"É o corolário de uma carreira de aventura, na variante empresarial", afirma Carlos Oliveira, acrescentando que, a par da participação no Dakar, este é um dos maiores sonhos da sua vida.

Em 2003, com Pedro Jordão como navegador, ligou Marselha (França) a Sharm el-Sheikh (Egipto), chegando a estar nos primeiros lugares da classificação geral do rally.

O piloto elogia a capacidade técnica da filha, também veterana do todo-o-terreno, e revela que os exploradores portugueses Serpa Pinto, Roberto Ivens e Hermenegildo Capelo foram a sua grande inspiração. Em 1877, os três cartografaram as bacias hidrográficas dos rios Zaire e Zambeze. Carlos devorou avidamente os livros com as descrições do centro de África feitas por estes pioneiros.

"Passámos pela Zâmbia, pelo Malawi e visitámos a barragem de Cahora-Bassa. É uma obra extraordinária em todos os aspectos, que fazia parte dos meus desígnios de viagem", conta, elogiando a magnitude do complexo hidroeléctrico localizado no rio Zambeze, na província de Tete (Moçambique), o segundo maior de África, construído durante a Guerra Colonial e de Independência Moçambicana.

De Maputo, a expedição seguiu para sul, descendo em direcção à Cidade do Cabo, em sentido inverso à rota de Vasco da Gama na busca pelo caminho marítimo até à Índia. Daí partiram novamente para norte, até Luanda, onde a pickup, especialmente preparada para a expedição, foi revista e reforçada após 12.200 quilómetros percorridos, antes de encarar a terceira etapa de 13.800 quilómetros até Leiria.

No Congo, ao atravessar a linha do Equador, Carlos cumpriu o sonho de ver um gorila em estado selvagem, na selva. "África ensina a não contar o tempo e nela também se aprende a esperar que chegue o tempo" — frase que, não sendo da sua autoria, foi apadrinhada por pai e filha nesta aventura.


Contrastes africanos


"A viagem é toda ela um momento alto, por razões de tipo diferente", descreve Oliveira. "A parte mais a sul, nomeadamente Namíbia e África do Sul, são países muito evoluídos, com paisagens fantásticas. Desde o grande jardim que é a África do Sul até ao grande deserto que é a Namíbia. Muita infraestrutura, tudo organizado e pensado, muito virado para o turismo."

A expedição rumo a norte fê-lo percorrer o território angolano onde, após a boa surpresa dos países meridionais, notou um grande contraste. "Ali, nada está vocacionado para o turismo. As dificuldades agravam-se na condução e na logística, mas o desafio aumenta progressivamente. Atinge o seu auge na travessia dos Camarões para a Nigéria, com pistas inacreditáveis, muito difíceis, com lama, mas sempre encontrando pessoas disponíveis para ajudar, aconselhar, convidar-nos para casa, ajudar na reparação do carro. Tudo isto faz parte de um momento alto em África."

Já no final, Marrocos surpreendeu, apresentando-se como "um país mais europeu do que muitos europeus", na infraestrutura industrial, rodoviária, hoteleira, alimentar, na organização, no parque automóvel e nos comboios de alta velocidade.

Ana Oliveira: copiloto e navegadora

"Não há muita gente a ter o privilégio de fazer uma viagem destas com o pai", diz Ana Oliveira. Sente que os momentos mais altos nasceram no ímpeto de abraçar o desconhecido, com destaque para o troço entre Luanda e a Mauritânia.

"Conheço bastante bem o sul do continente e Marrocos. Por isso, esta extensão territorial entre Angola e a Mauritânia entrou nos pontos altos da viagem. A Nigéria foi a maior surpresa, que resultou do receio e da ideia — provavelmente errada, de acordo com a nossa experiência — daquele país."

A Nigéria está assinalada devido à ameaça terrorista fundamentalista islâmica, sobretudo no nordeste, com frequentes raptos e roubos violentos. "A nossa experiência foi óptima, no contacto com as pessoas e com zero perigo nas zonas por onde passámos. Essa etapa constituiu uma experiência semelhante a um Camel Trophy, o que a tornou na parte mais memorável de toda a viagem."

Carlos, por seu turno, recorda um episódio caricato. "Só faltou a uma diplomata de alto nível, em Yaoundé (Camarões), pôr-nos algemas para nos impedir de seguir para a Nigéria. Aconselhou-nos a esconder o dinheiro no carro, advertiu-nos de que podíamos ser raptados e roubados. Por isso, entrámos na Nigéria muito preocupados. Contudo, em todos os contactos que tivemos, fomos absolutamente surpreendidos pela positiva. Não houve momento algum em que percebêssemos que alguém nos poderia criar problemas."

Solidariedade inesperada

Aliás, na travessia do país, após uma pancada forte no chão, o vidro traseiro do carro estilhaçou. Era preciso substituí-lo. Após estudar o problema, a solução mais rápida seria comprar um em Leiria e enviá-lo por transportadora, mas era necessária uma morada naquele país.

Rapidamente se montou uma rede de contactos até conseguirem alguém que recebesse o vidro. "Essa pessoa ficou tão contente por nos ter conhecido e tão entusiasmada com a nossa viagem que, depois de encontrar o vidro e o mecânico para o montar, nos surpreendeu dizendo que o vidro e a montagem eram oferta sua. Isto é incrível, só em África", conta o empresário.

Em termos desportivos, Ana Oliveira já ocupara antes o cargo de navegadora ao lado do pai e, nesta viagem, teve novamente a oportunidade de colocar os seus conhecimentos à prova.

"Nunca nos perdemos. Às vezes tivemos de refazer as rotas, mas foi sempre tudo certinho." Uma dessas ocasiões aconteceu em Angola. "Tínhamos a nossa navegação preparada e, quando chegámos a um determinado local no norte do país, logo ao terceiro dia, perguntámos se a estrada estava boa para o troço seguinte. Disseram-nos que a ponte tinha caído e ninguém a reconstruíra. Outras pessoas disseram-nos o contrário. Ficámos tão inseguros que fomos perguntar à polícia. A única coisa que nos disse foi que era proibido estacionar ali... O agente não sabia rigorosamente nada da estrada", conta o pai, em jeito de anedota.

Como o seguro morreu de velho, a expedição optou pela via alternativa, contornando a ponte supostamente destruída, o que se revelou uma verdadeira odisseia. "Demorámos 15 horas para fazer menos de 180 quilómetros. Muito difícil, com muitos atascanços, o que nos levou a repensar o plano previsto para Angola."

Ana Oliveira conduziu a Ford Raptor no início da jornada e percorreu 700 quilómetros ao volante. "Parti com a ideia de poder dizer que já guiei em 26 países africanos, mas percebi que era uma batalha perdida e que o meu lugar era de copiloto. Não é por falta de confiança nas minhas competências de condução, mas porque estávamos numa etapa maratona em que era preciso poupar o carro. Não há dúvida de que o meu pai tem mais conhecimentos técnicos e mecânicos e pode proteger melhor o veículo de possíveis incidentes."

Enquanto Ana estava ocupada a debitar notas, ver mapas, marcar hotéis e descobrir a única bomba de combustível num raio de centenas de quilómetros, Carlos lia e interpretava o terreno, evitando as armadilhas do piso, sempre a bom ritmo. "Tivemos situações em que toda a gente nos dizia que aqueles 100 ou 150 quilómetros eram para sete ou oito horas e nós fazíamos em duas horas e meia, três horas, sempre protegendo o carro, porque não era uma corrida, mas uma maratona."

Preparar o carro para a aventura

As dormidas eram sempre programadas procurando uma paragem com possibilidade de hotel. "E 'um hotel' quer dizer um lugar para dormir, não é propriamente a ideia que temos de hotel. Era uma cama. Entrámos em alguns sítios com a luz quase apagada para não vermos e não nos assustarmos. O importante era endireitar o corpo, fechar os olhos e dormir", recordam pai e filha.

A alimentação era feita muitas vezes com refeições cozinhadas no carro, que foi preparado para o efeito. O pequeno-almoço eram uma ou duas bananas e seguia-se viagem. Em troços mais planos, aproveitavam para tomar um cafezinho em chávenas Vista Alegre, sem parar, com o carro em andamento.

A carrinha Ford Raptor foi adquirida por Carlos Oliveira com o propósito de realizar este tipo de viagens. O primeiro teste para o duo aconteceu há dois anos no Leiria-Bissau e volta.

"Tem tracção integral e motor a gasolina. Este carro é indiscutivelmente aquele que, do meu ponto de vista, tem melhor performance para o que pretendemos fazer. Muita gente disse-nos que esta não era a marca adequada, que o carro era muito sofisticado, que tinha muita electrónica, que era perigoso, mas teve um comportamento fantástico, extraordinário. Da performance do motor à caixa de velocidades e à suspensão incrível. E é tudo de origem", descreve o piloto.

Mas é mesmo tudo de origem? Praticamente. O chassis conta com uma protecção integral no fundo, instalada pela empresa da Maia que fez a restante preparação e Carlos Oliveira admite que apenas foi trocado o tanque de gasolina original, substituído por um de 140 litros construído em aço inoxidável por uma empresa especializada australiana.

Foi também colocado um guincho, sempre útil para sair de um lamaçal ou desimpedir a estrada. A suspensão traseira foi reforçada para compensar a carga. Instalaram um frigorífico cheio de bebidas refrigerantes, cerveja, vinho, leite, queijos e restantes necessidades do quotidiano.

"Instalámos uma segunda bateria de protecção à primeira e para compensar o consumo superior do frigorífico. Colocámos um snorkel, não só para optimizar a entrada de ar no motor, mas também para passar em águas mais fundas. Um compressor para o caso de termos furos lentos e podermos compensar a perda de ar dos pneus ou para baixar a pressão ao andar em areia e depois voltar a subi-la. Basicamente, tirámos o banco de trás e ali instalámos tudo."

Foi ainda adaptada uma tenda ao tejadilho, mas praticamente não foi usada.

Porquê gasolina e não diesel?

"Primeiro pela performance e pela rapidez da resposta do motor. Temos cerca de 420 cavalos à nossa disposição e é mais fácil encontrar gasolina de melhor qualidade em África do que diesel", explica o antigo empresário, acrescentando que um carro a gasolina é "incomparavelmente mais ágil do que um a gasóleo".

Embora os veículos a diesel contem com binários mais altos a rotações mais baixas, Carlos Oliveira aprendeu várias lições ao longo da sua vida ligada ao desporto motorizado e também no famoso Dakar e concluiu, após análise, que aquela era a motorização mais apropriada.

"Há que cumprimentar a Ford por ter tido a visão de produzir um carro com esta performance. É objectivamente extraordinário. Neste momento, conta já com cerca de 56 mil quilómetros percorridos em viagens deste tipo. Não o uso no quotidiano, apenas para viajar e para fazer uns passeios de treino. Fizemos uma viagem muito interessante com uns amigos espanhóis, a Transfronteiriça, que nos levou de Ciudad Rodrigo até à Galiza, seguindo sempre a fronteira."

Sabão e fugas de gasolina

Ao fim de milhares de quilómetros de pancada, apareceu o único problema preocupante na viatura. O aço inoxidável do tanque de combustível cedeu e deformou, permitindo uma fuga de gasolina.

Foi numa montanha da Nigéria, país onde os veículos todo-o-terreno da marca Land Rover são reis e senhores.

"Só se encontram Land Rovers com mais de 50 anos. Tenho uma fotografia que fiz para oferecer a um amigo fanático da marca, onde se vê um a levar duas toneladas de bananas", descreve Carlos Oliveira.

Foi um desses "pilotos de Land Rover" que, com astúcia, conseguiu remendar a fuga que tinha como origem uma soldadura no tanque. Usou sabão. A solução permitiu a pai e filha regressarem à estrada e continuarem para norte.

"Passados uns quilómetros, numa vilória, retirámos o sabão e colocámos cola. Já na Guiné-Bissau voltou a verter pelo mesmo sítio e então tivemos de tirar o tanque e colocámos uma cola de melhor qualidade. Ainda está vedado com a mesma cola!"

Embaixadores de Leiria e Portugal

No percurso, tiveram o apoio da Ford Moçambique, que graciosamente inspeccionou o Raptor, e da Ford Luanda, que fizeram a revisão.

"Levávamos sobresselentes — óleos e peças — que lhes entregámos e eles fizeram todo o trabalho, não nos cobrando rigorosamente nada. Ainda me deram como presente um estojo e uma caneta, além de eu ter sido recebido pelo CEO, pelo director de serviço de pós-venda e pelos chefes mecânicos", recorda, agradecido, Carlos Oliveira.

Voltariam a ser auxiliados pela marca em Bissau, capital da Guiné-Bissau, onde os mecânicos retiraram o tanque e o repararam com a cola de melhor qualidade. "Foi um trabalho duro que levou um dia e também o fizeram graciosamente, em apoio à viagem!"

Carlos levou no carro, sem quaisquer contrapartidas, as cores de Leiria e do Visite Leiria. "Fomos interpelados muitas vezes por pessoas a perguntar por Leiria e a dizer que é uma cidade muito bonita. Primeiro, sou leiriense, depois, sou português, depois, sou europeu, depois, sou ocidental. Dentro desse ponto de vista, ter sido de alguma forma embaixador de Leiria é algo que me deu algum gosto."

Em terras africanas, Cristiano Ronaldo é uma espécie de sinónimo de Portugal. "A terra do Cristiano Ronaldo! Da montanha às cidades, a esmagadora maioria, quando percebia que éramos portugueses, falava de Ronaldo."

Passaram por locais da África que fazem parte da história de Portugal, como São João Batista de Ajudá (Benim), ou nos sítios onde ainda se erguem os padrões do tempo dos Descobrimentos.

"Estivemos num hotel em Bissau três dias e, quando fomos pagar, o dono, que pertence à terceira ou quarta gerações a gerir o espaço, pegou numa folha de papel, desenhou um traço de alto a baixo, escreveu 50% de cada lado e disse:

'Este desconto é a minha ajuda e patrocínio para a vossa viagem.'"

E agora, o que se segue?

"Quem consegue fazer um Luanda-Dakhla (Saara Ocidental) faz tudo aquilo que é, de facto, um verdadeiro sonho de travessia da África. Depois de Dakhla já estamos praticamente na Europa, a subir Marrocos, numa zona muito civilizada, com todo o conforto e tranquilidade. Mas até chegar a essa cidade é uma grande experiência para nunca mais esquecer."

Carlos entende que África precisava de ser vista pelos políticos e pelos "estrategas da sociologia de uma forma completamente diferente".

"É incrível ver como aquelas pessoas que vivem naquelas condições são absolutamente afáveis, simpáticas e agradáveis."

"Tivemos alguns incidentes com polícias que, naturalmente, vivem ou sobrevivem com salários miseráveis ou em atraso e que procuram ganhar algum dinheiro com turistas. Connosco foram sempre super-simpáticos. Posso dizer que adaptei o meu discurso com eles e antecipei-me normalmente ao pedido de dinheiro. Tinha a minha estratégia de comunicação, a forma humana de falar com eles, e não tivemos praticamente nenhum problema."

A viagem foi uma lição de vida e para a vida, que decorre de uma grande paixão pelo continente, pelo humanismo e pelas pessoas.

"Aprendemos que, em África, não se pode contar o tempo e aprende-se a esperar que chegue o tempo. E ele chega sempre."

Já Ana Oliveira não esconde a ambição de conhecer mais.

"Já viajei bastante, inicialmente muito impulsionada pelos meus pais, já vivi em vários sítios do mundo, sempre com a intenção de conhecer mais pessoas e o mundo. Vivo em Moçambique há 12 anos, portanto não há dúvida de que sou apaixonada por África. Tinha este sonho que se juntou ao do meu pai: um dia poder chegar de carro a casa, em Leiria, vinda de Moçambique."