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A piação do Ninhou, o laínte da Casconha e a gíria dos porqueiros

12 ago 2021 15:45

Património imaterial | A piação ou minderico é uma “língua individual, autónoma e viva”, o laínte da Casconha procura o mesmo reconhecimento e o linguajar dos porqueiros da Boa Vista busca apenas não desaparecer para sempre. São três “falares” que ajudaram a forjar o nosso território

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Entre Mira de Aire e Minde, a piação apresenta diferenças que podem ser comparadas às do português falado no Porto e ao utilizado no Algarve
Ricardo Graça
Jacinto Silva Duro

Na região, há modos de falar ancestrais, verdadeiros códigos herméticos apenas compreensíveis aos iniciados, que foram, durante anos, alternativas ao português padrão. No nordeste do distrito de Leiria, nos concelhos de Castanheira de Pera e de Figueiró dos Vinhos, o “laínte da Casconha” - literalmente o “latim de Castanheira de Pera”, numa tradução directa - e a gíria dos porqueiros da Boa Vista, a poucos quilómetros a norte de Leiria, são vestígios de uma identidade ligada à terra e aos ofícios tradicionais, mas estão a definhar.

São sinais que contrastam com a segunda vida que o minderico recebeu nos últimos anos, após, em 2011, ser reconhecido como verdadeira “língua individual, autónoma e viva”. Ainda hoje é falado na bacia do polje de Mira-Minde.

“Tanto o laínte como a gíria dos porqueiros - evitamos utilizar o termo ‘calão’, por ser depreciativo - são socioletos ligadas a grupos socio-profissionais. Têm duração curta e são usados, essencialmente, pelas pessoas de uma área profissional. Em Castanheira de Pera e Figueiró, foram-no pelos comerciantes do têxtil, na Boa Vista, pelos porqueiros”, explica Vera Ferreira, linguista documental, arquivista digital no SOAS - Instituto de Línguas Mundiais da Universidade de Londres, e co-autora do Dicionário Bilingue Piação-Português (minderico-português).

A “piação dos charales do Ninhou” ou minderico é uma língua ameaçada falada em Minde (Alcanena) e Mira de Aire (Porto de Mós), por uma comunidade de cerca de 150 falantes activos e mil falantes passivos.

Durante anos, pensou-se que teria raízes num socioleto, porém, a investigação de Vera e dos seus colegas abriram outra possibilidade apaixonante, marcada pela geografia local, que potenciou o isolamento da população no meio das fragas das Serras de Aire, de Candeeiros e de Santo António.

Exemplo do minderico
Português
1 - Entrega as mantas ao homem porque Deus não dorme.
2 - O homem dá quinhentos escudos por uma manta.

Piação
1 - Jorda as meníseas ao terraisinho porque o grande juíz não tarranta.
2 - O terraisinho jorda cinco cédulas por uma menísea.

A equipa identificou uma génese que pode ser traçada até ao português arcaico, dos séculos XII e XIII, bem como vocabulário de origem árabe e estrutura moçárabe.

O estabelecimento da manufactura de mantas na região, nos séculos XVI e XVII, pode ter potenciado a expansão da piação à Serra de Santo António, onde havia produção de lã, embora hoje, só restem as memórias de pessoas que terão falado minderico, naquele planalto.

“Existem termos no minderico, mais antigos do que os séculos XVI e XVII, o que nos leva a pensar que já existiria antes”, revela Vera Ferreira. Entre as curiosidades que marcam esta língua são as diferenças entre o que é falado em Mira de Aire e o que é em Minde.

“É qualquer coisa como o português do Porto e o do Algarve. Há termos diferentes, mas inteligíveis.”

O que leva a piação a ser considerada como língua é o facto de ainda existir uma comunidade, fora de um grupo socio-profissional, que a fala, embora os falantes sejam cada vez menos e mais idosos.

A mais jovem falante de minderico tem 50 anos.

Mas Vera e os defensores desta língua estão optimistas porque após o lançamento do Dicionário Bilingue Piação-Português e da atenção nacional de que, recentemente, o minderico foi alvo, a comunidade percebeu que, afinal, aquele era um tesouro só seu.

Até aí, muitos mostravam-se envergonhados, quando se mencionava a língua local. “Estava muito viva a ideia de que só quem vendia nas feiras, não tinha instrução nem cultura, a falava.” O sentimento hoje, é de orgulho por este património e, entretanto, foi dada formação a professores e houve aulas na escola preparatória de Minde.

Provavelmente, o minderico não deixará de ser uma língua ameaçada, mas, pelo menos, passou a ser motivo de orgulho em Mira de Aire e em Minde.

Exemplo do laínte
Português
Latiqueiro 1: Ó meu, repara no freguês, traz muito
dinheiro na algibeira.
Latiqueiro 2: Sim meu, estou a vê-lo.
Latiqueiro 1: Aqui o freguês é alfaiate e quer
comprar muitos tecidos.
Latiqueiro 2: Sim amigo, eu tenho muita fazenda,
vamos lá vender-lhas.

Laínte da Casconha
Latiqueiro 1: Ó meu, pidonha o fragato, astra
timum de gardelo na aljabra do tofa
Latiqueiro 2: Insara meu; cames pidonha o leio.
Latiqueiro 1: Aquimes o fragato verse alcatrefo e
aréque carmar timum de faiarra.
Latiqueiro 2: Insara adegumo, cames adota timum
de catraia, jordamos verdunhar-lhe as faiarras.

“Aquimes, na Casconha, larfava-se laínte”
Domingos Alves, nascido e criado em Castanheira de Pera, reivindica ser a única pessoa viva que ainda sabe falar o laínte. Fez uma extensa recolha do léxico e gramática deste modo de falar, há mais de 20 anos, quando ainda havia quem o conhecesse por dentro.

Será uma língua, um linguajar, uma gíria ou um código? A discussão continua em aberto, mas Alves propõe o termo “linguagem paralela”.

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