Sociedade

"Ainda não apareceu aqui ninguém. Estamos entregues a nós próprios"

31 jan 2026 10:17

Três dias após a tempestade, ainda há aldeias do concelho de Ourém onde não foi possível chegar apoio. Populações valem-se da entreajuda de vizinhos e familiares

Maria Anabela Silva

"É da Protecção Civil?" A pergunta surge pronta e ansiosa na voz da filha de um casal de idosos, residentes em Espite, Ourém, assim que a reportagem do JORNAL DE LEIRIA se aproxima, num carro descaraterizado e desconhecido na aldeia. O ânimo esmorece quando nos identificamos e dizemos ao que vamos.

Já passaram quase três dias desde que a tempestade. E "ainda não apareceu ninguém a perguntar se precisamos de alguma coisa", lamenta aquela mulher, que veio de Braga para ajudar os pais. "Estamos entregues a nós próprios. Valemo-nos uns aos outros", desabafa Carminda Ferreira, de 82 anos, sem ressentimento ou revolta na voz. "Eles têm muito para fazer e muita gente para acudir", diz, conformada, ainda mal refeita do "pandemónio" que viveu na madrugada do temporal.

Sozinha em casa, Carminda viu a água entrar-lhe pelo buracos que as telhas partidas iam fazendo no tecto. "Chorei muito. Só queria que acabasse". Já com o pior passado, agarrou forças e começou a espalhar toalhas, lençóis e panos para ensopar a água. Entretanto, o sobinho, que veio de Peniche para ajudar os pais, bateu-lhe á porta e reparou-lhe o telhado, repondo telhas.

Mas, o maior pesadelo de Carminda Ferreira foi não saber nada do filho, que reside na Azoia, em Leiria, e que tem problemas de coração, que só conseguiu ir a Espite, na sexta-feira. "O prédio também ficou danificado. Estávamos sem comunicações e sem combustível. Não tínhamos nada", justifica Pedro Ferreira, que lamenta a falta de apoio às aldeias mais isoladas. "O concelho não é são só as cidades", desabafa, reconhecendo, no entanto, que a devastação é "enorme" e que "não podem acudar a todo. "Mas podia, pelo menos, vir perguntar se estas pessoas precisam de alguma coisa", reforça.

No balanço que fez ontem à tarde, o presidente da Câmara de Ourém, reconhecia que "ainda não tinha sido possível chegar a todas as pessoas". "O concelho ficou completamente devastado", afirmou Luís Albuquerque, declarando que "não lhe passar pela cabeça" que o município não seja abrangido pelo estado de calamidade decretado pelo Governo.

Segundo o autarca, 30 pessoas tiveram de ser realojadas, 28 em casas de familiares e duas num apartamento do município, e 800 dos cerca de 1.000 quilómetros de estradas do concelho ficaram obstruídas. Houve também danos nem "praticamente todos" os equipamentos municípios, nomeadmente no edifício dos Paços do Concelho, "onde chove como na rua", em pavilhões, piscinas, escolas e estádio de Fátima. O canil municipal está "completamente destruído" e a cobertura do castelo foi levantada.