Sociedade
Casal transforma terreno queimado em refúgio para cerca de 150 animais
Sueli Alves e Carlos Rosete abriram a Quinta Pedagógica da Aldeia do Branco em 2024
Após o incêndio de 2022, que consumiu grande parte da mancha florestal de Colmeias e Memória, poucos indícios restavam, nos terrenos negros e repletos de cinza, que algo novo poderia crescer.
Sueli Alves e o marido, Carlos Rosete, procuravam, nessa altura, um novo local para viver, longe da cidade, com um grande terreno onde pudessem ter animais, uma das paixões que une o casal.
Num passeio fortuito, passaram pela Serra do Branco e descobriram o lugar ideal. Daí até à escritura do terreno passaram apenas dois meses e o casal quis logo pôr mãos-à-obra.
Com a ajuda de vizinhos, que fizeram algum do mobiliário urbano, Sueli e Carlos ergueram a Quinta Pedagógica da Aldeia do Branco, onde o tempo passa mais devagar e os animais da quinta recebem os visitantes, na sua maioria famílias e crianças, no seu habitat natural.
Abriram portas em Junho de 2024 e, dois anos depois, são quase 150 os animais que podem ser visitados na Serra do Branco.
A Bea e o Ghandi, uma ovelha e um cão, costumam estar à entrada e dar as boas-vindas aos visitantes.
Enquanto o Ghandi é um cão treinado para terapia assistida e acompanha Sueli para qualquer lado, a Bea tem uma história de superação que atesta o papel de acolhimento e resgate desta quinta.
Rejeitada pela mãe quando nasceu, foi alimentada a biberon, mas, aos dois meses, um cão atacou-a, deixando-a com a face desfigurada e, por momentos, paraplégica.
Sueli e o marido não desistiram deste animal e, com fisioterapia, voltou a andar e é das primeiras a receber os mimos das crianças que chegam.
Há muitas destas histórias por toda a quinta. Um dos cavalos foi resgatado de dentro de uma piscina e a burra Vitória foi encontrada muito magra e em más condições, na zona de Carnide. “Estava extremamente magra e os cascos, que devem ser feitos de dois em dois meses, já não eram feitos há anos”, recorda a dinamizadora da quinta. Comprou-a ao anterior proprietário e, com o cuidado certo, recuperou. “Engordou aqui 120 quilos”, enaltece.
A paixão dos fundadores da quinta pelo mundo animal é notória e, por isso mesmo, lembram que não podem “ficar com todos os animais que aparecem”.
Cada caso é analisado quando chega até eles, porque apenas acolhem as espécies quando têm um local onde as podem colocar, cercado e com todas as condições. Entre alimentação alimentação e cuidados veterinários, as despesas com animais já ascendem aos três mil euros mensais.
No início do percurso, as vacas Milka e Mimosa, apesar de imponentes graças ao seu tamanho, gostam de receber festas e as visitas de quem passa, fruto de um trabalho de socialização que o casal tenta desenvolver com todas as espécies.
Quando passam pessoas, nenhum se assusta e todos mostram que estão habituados à presença humana. Cabras micro anãs, aves, coelhos ou porcos da Nova Zelândia são apenas algumas das espécies a residir na quinta e, durante as visitas, Sueli faz questão de explicar às crianças a história de cada animal e os cuidados a ter.
Na quinta, além de visitar os animais, as crianças também podem andar a cavalo ou de charrete e brincar livremente num espaço com um campo de areia e outros elementos capazes de proporcionar um dia de diversão.
Ainda há espaços para actividades desportivas, e uma zona pronta para piqueniques, que pode ser reservada para festas de aniversário.
Agenda quase cheia
Repleta de frases inspiradoras, pintadas ao longo do caminho por Sueli, a quinta não tem mãos a medir durante o Verão, com as visitas de escolas e ATL.
Ainda assim, abre portas às famílias que pretendam passar um dia no campo. O próximo Dia Aberto às Famílias acontece a 8 de Agosto e não carece de reserva prévia.
Os proprietários da quinta ainda estão a recuperar dos estragos da tempestade. Houve elementos, como o jardim das emoções ou o trampolim, que não resistiram aos ventos fortes, mas Sueli Alves encara esta situação como uma oportunidade para dinamizar novos projectos.
Pretende criar um “mini Portugal dos Pequenitos” e já prepara, nas poucas horas livres, um novo edifício que irá alargar o espaço da quinta. Para a mentora, o trabalho que o espaço dá é gratificante quando vê as famílias a ir embora com um sorriso no rosto.
“As crianças saem daqui com outra perspectiva. Já lá vão três verões e as pessoas que vieram no primeiro, repetiram o segundo e o terceiro. Somos uns bebés, mas tentamos ser o mais próximos possível das pessoas. Acho que tem de haver proximidade, contacto e sensibilidade, para transmitirmos o máximo que tivermos para transmitir. Todos nós temos coisas a aprender uns com os outros”, acredita.