Sociedade

Curadora das Caldas coordena área de investigação na Coventry University

25 jan 2020 12:56

Natural de Caldas da Rainha, Carolina Rito está em Londres desde 2011.

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Maria Anabela Silva

Curadora, ensaísta e investigadora, Carolina Rito, natural de Caldas da Rainha, foi convidada pela Coventry University, em Inglaterra, para desenvolver e implementar uma nova área de investigação na instituição, que destaque o papel da curadoria como produtora de “novas formas de conhecimento”.

A curadora é também agora responsável pela coordenação da área de pesquisa prática do Research Center Arts, Memory and Comnunities na Coventry University, função que, entre outras coisas, envolve a orientação de doutoramentos com instituições e investigadores internacionais. A par da docência e da investigação, Carolina Rito é ainda editora de um jornal on-line sobre arte contemporânea (The Contemporay Journal). A mudança para Inglaterra aconteceu em 2011.

Carolina Rito partiu com uma bolsa da Fundação para a Ciência e Tecnologia, com o objectivo de fazer o doutoramento no Goldsmiths College, da Universidade de Londres, “numa área que, nessa altura, só existia em Londres” - curadoria e conhecimento –, sob a orientação da curadora que “iniciou essa escola de pensamento”.

Antes, havia sido seleccionada pelo programa CuratorLab, para desenvolver uma trabalho de investigação sobre práticas curatorais na Universidade de Konstfack, em Estocolmo (Suécia). Também já tinha vivido na China e nos EUA. “Viajar sempre foi um desejo e uma paixão. Sairmos da nossa de conforto faz-nos reequacionar o que consideramos ser normal, redefinirmos a nossa identidade e partilhar outras mundividências”, diz Carolina Rito, que lecciona investigação em prática criativa no centro de pesquisa em artes, memória e comunidades da Coventry University.

Até Novembro último, foi também directora do programa público e de investigação do Notttingham Contemporary, um museu de arte contemporânea onde coordenava pesquisas e orientava doutoramentos, ao mesmo tempo que fazia a curadoria de eventos públicos na instituição.

“Desde cedo que tenho estado ligada à academia e ao sector cultural, conciliando, sempre que possível, as duas funções nos cargos que tenho desempenhado. Penso que uma necessita da outra e que a teoria e a prática são átomos da mesma matéria”, alega.

Nascida em 1981, Carolina Rito licenciou- se em História (variante História da Arte) pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, fazendo depois o mestrado em estudos curatoriais pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e a Fundação Calouste Gulbenkian.

Em Portugal, deu aulas na Escola de Arte e Desing de Caldas da Rainha e na Faculdade de Belas Artes na Universidade do Porto. Como curadora, integrou vários projectos da Gulbenkian, Culturgest, Guimarães Capital Europeia da Cultura e Serralves. “A experiência mais marcante a nível profissional em Portugal foi com o curador Nuno Faria para a exposição retrospectiva do Fernando Calhau no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian em Lisboa”, destaca a curadora, que lamenta que “sobreviver na área cultural em Portugal continue a ser um desafio muito grande”.

O regresso a Portugal não está nos planos da curadora. Isto, apesar do sentimento de incerteza que se vive em Inglaterra, por causa do Brexit e do “aumento de sentimentos xenófobos e racistas”. “Não me preocupa a minha situação pessoa, mas sim a degradação do ambiente, com o aumento da tensão e as incertezas sobre o futuro dos emigrantes europeus.”

 

Em Caldas da Rainha
Ofereceu centenas de livros para biblioteca no Bairro Azul
 
Os livros sempre foram uma paixão para Carolina Rito. Pelo que, ao longo dos anos, foi acumulando centenas de exemplares, de temas tão diversos como poesia, ficção ou história, que deixou em Caldas da Rainha quando, há nove anos, partiu para Inglaterra. Agora, estão a ganhar uma nova vida, na recém-criada biblioteca do Bairro Azul, em Caldas da Rainha, constituída por centenas de livros oferecidos pela curadora. São, explica Carolina Rito, obras que “mapeiam” os seus interesses, onde se incluem autores como Eça de Queirós, Ernest Hemingway, António Gedeão ou Eugénio de Almeida, enciclopédias, dicionários (português, inglês e francês), livros de história da arte (nacional e internacional), catálogos de exposições ou monografias de artistas contemporâneos. “A biblioteca nunca teve como objectivo fazer uma cobertura exaustiva dum ou doutro tema. Por isso, é bastante ecléctica e errática. Acompanha os meus interesses e percurso”, frisa Carolina Rito. Para a curadora, a oferta dos livros ao bairro onde cresceu “era um sonho” e representa a oportunidade de “poder contribuir, de uma forma muito singela, para o crescimento intelectual e literário” do seu bairro. Por outro lado, acrescenta, é também uma forma de os colocar “novamente em circulação, de partilhá-los, de retribuir as 'vivas' e o conhecimento que me trouxeram”. “Os livros nunca se gastam. Podem ser lidos quantas vezes quisermos sem nunca perderem a mensagem e o conteúdo. Essa ideia motivou-me a deixá-los em Portugal. Sei que vão ser úteis a outros. E, se algum dia quiser revisitá-los, seio onde moram”, refere.
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