Sociedade

Depois do Curdistão, professora de Leiria dá aulas no Cazaquistão

1 mar 2026 12:00

Ana Cristina Marques é formada em Antropologia, com doutoramento em Sociologia, já trabalhou no Reino Unido e no Curdistão iraquiano e está, desde 2024, no Cazaquistão

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Maria Anabela Silva

Com “muito orgulho” das raízes leirienses – nasceu e estudou na cidade do Lis até aos 18 anos -, Ana Cristina Marques considera-se uma cidadã do mundo. Formada em Antropologia e com doutoramento em Sociologia, já trabalhou no Reino Unido e no Curdistão iraquiano e está, desde 2024, no Cazaquistão, como professora e investigadora da Escola de Ciências e Humanidades da Universidade de Nazarbayev, em Astana.

A conversa telefónica com o JORNAL DE LEIRIA acontece no final de mais um dia de aulas. Lá fora, conta, estão “mais de 20.º graus negativos”. O desfiar de memórias levam Ana Cristina Marques, de anos 46 anos, à Escola Secundária Francisco Rodrigues Lobo, onde uma professora lhe falou do curso de Antropologia. “Queria conhecer a história de outros povos, a sua cultura e saberes e a forma como eles nos podem ensinar.”

Terminada a licenciatura na Universidade Nova, um acaso - “vi o anúncio num jornal de um novo curso de família e sociedade” - levou-a ao Departamento de Sociologia do ISCTE, onde trabalhou como investigadora ao mesmo tempo que fazia o doutoramento. Teve a sua primeira experiência além-fronteiras nessa fase ao mudar- se para Inglaterra com o marido. Foi, assume, “um choque” a vários níveis, a começar pelo estilo de vida.

“Estava habituada a sair com os amigos, aos encontros nos bares e cafés depois do trabalho. Lá, era casa- trabalho e vice-versa. Até o tempo não ajuda, porque escurece cedo. Passa-se muito tempo dentro de casa”, recorda Ana Cristina Marques, que trabalhou no Departamento de Antropologia do University College of London, ao mesmo tempo que concluía a tese de doutoramento sobre sexualidade juvenil. Acabou por se divorciar e, enquanto pensava no rumo a seguir, falaram-lhe de um site de emprego qualificado. Encontrou uma vaga no Curdistão iraquiano e foi aceite na Universidade de Soran.

Apesar das diferenças culturais e sociais, que se fazem sentir, por exemplo, “na atenção ao que se veste, para ter os braços e a pernas tapadas” e na proibição do consumo de carne de porco, a adaptação “foi mais fácil do que em Londres”. “As pessoas dão muito valor à hospitalidade e, como sou sociável e gosto de falar e estar com as pessoas, isso ajudou-me muito.”

Perto da guerra, mas segura

O tempo em que viveu no Curdistão iraquiano coincidiu com um período conturbado, devido à acção dos jihadistas para controlo de territórios sírio e iraquiano. “A guerra estava perto, mas nunca entrou. Estávamos seguros”, recorda Ana Marques, que conheceu o actual marido, professor britânico que lecciona Literatura Inglesa, no Curdistão.

Embora o conflito armado não tivesse chegado ao Curdistão iraquiano, as consequências da guerra faziam-se sentir com a deterioração da situação económica, o que levou a professora a regressar, primeiro a Inglaterra, onde trabalhou como cuidadora, e depois a Portugal, como investigadora no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

Entretanto, o marido que a tinha acompanhado, recebeu uma proposta para voltar ao Curdistão iraquiano. Ana Cristina ainda ficou mais algum tempo em Portugal, mas acabou por regressar. A vontade de voltar a dar aulas – estava apenas a fazer investigação – levou-a a concorrer a um lugar de professora no Cazaquistão, mudando-se em Agosto de 2024 para Astana, onde encontrou diferenças em relação ao Curdistão iraquiano.

Ao nível da gastronomia, por exemplo, é possível encontrar carne de porco e produtos europeus, incluindo “vinhos portugueses”. Outra das diferenças prende-se com a emancipação da mulher. “No Curdistão iraquiano o discurso oficial é de promoção da mulher, mas na sociedade ainda persistem a desigualdades, nomeadamente, ao nível da movimentação das mulheres nos espaços públicos. No Cazaquistão, há uma omnipresença feminina. Vêem-se mulheres a trabalhar em todo o lado.”