DEPRESSÃO KRISTIN
Indignação toma conta de quem tem gerador na rua, constantemente a avariar
Na Longra (freguesia da Caranguejeira), moradores lidavam com uma nova avaria do gerador e o regresso à escuridão
Passam os dias e cada vez mais pessoas têm, finalmente, luz, apesar de ser fornecida por um gerador ligado a um PT (posto de transformação).
Três semanas se passaram desde a tempestade Kristin e na rua Fonte do Cabeço, na Longra (freguesia da Caranguejeira), alguns dos moradores celebraram a colocação de um gerador e o regresso da electricidade.
A felicidade durou pouco tempo, porque na noite de segunda-feira, tudo estava às escuras novamente. “Vieram-lhe pôr gasóleo de manhã e ele esteve a trabalhar. Trabalhou aí das onze horas à uma. À uma da tarde, desligou”, relata Isidro Rosário, que antevia mais uma noite passada ao frio, já que o aquecimento em casa depende da electricidade.
Como milhares de pessoas, Isidro Rosário viu toda a comida que tinha nas arcas a estragar-se. “Quando veio [a luz], foi tarde. Em Agosto, tinha matado um porco, três cabras, dois cabritos, tinha uma arca com 300 e tal quilos de carne. Tudo se estragou”, conta. Ainda conseguiu “safar” dez frangos, que distribuiu pelos vizinhos.
Naquela rua, a reposição da luz foi mais difícil. Na primeira semana após a tempestade, refere o morador, o PT foi furtado.
“Vieram cá, desmontaram tudo e puxaram-no pelo chão, levaram-no de ‘rojo’ até àquela casita velha, puseram-no lá dentro do pátio, com uma porta à frente e outra por cima. Até mostrei à E-Redes, mas só está lá a carcaça, o cobre já eles levaram”.
Isidro Rosário também viu parte do telhado arrancado, que conseguiu repor dias após o mau tempo, graças às telhas que sobraram quando ergueu a estrutura.
Mais à frente, na mesma rua, vários vizinhos tentavam perceber o que se passava com o gerador, por volta das 20 horas. Maria Manuela Santos e José Ferreira vivem ainda mais indignados: apesar de a luz ter regressado, por momentos, à rua onde residem, não liga as luzes de casa. Continuam às escuras.
“Tenho um gerador para me desenrascar, mas são 20 euros por dia de combustível”, conta o morador, ao referir que não o mantêm ligado o dia todo e há três semanas que abdica de um ventilador para respirar de noite – “em vez de serem 20, seriam 40 [euros]”.
É um dos quatro casos na mesma rua que precisam de um equipamento para tratar a apneia do sono.
O grupo de vizinhos contactava com técnicos especializados para tentarem perceber o que se passava com o gerador. Apesar das suspeitas de furto de combustível, ele mantinha-se com o depósito quase cheio. “Estão a dizer que se estragou uma fase”, disse José Ferreira, antes de regressar a casa para jantar, enquanto lembrou os primeiros dias sem luz.
“Quando não havia água, tínhamos de tomar banho e aquecer uma panela de água quente.” “Eu ainda faço isso agora! Tenho água, mas não tenho quente. Aqueço na panela e ponho na bacia”, responde Maria Manuela Santos, que nunca teve luz, mesmo com o gerador instalado.
“Primeiro, comecei com velas e agora tenho um projector [de luz]. Vamos ao café e o meu marido carrega-o. Dá 10 cêntimos a mais e bebe café”, explica, e desabafa: “Já não tomo banho há quase três semanas. Lavamo-nos como dantes, numa bacia. Tenho tantas saudades...”
Ainda assim, consegue cozinhar refeições quentes, graças ao fogão a gás que nunca trocou por um eléctrico. “É a minha salvação.”
Sente-se revoltada porque, apesar de já ter havido luz na rua, continua com a casa às escuras. “O piloto do contador, cá fora, está aceso e não temos luz dentro de casa. Sábado ou domingo, ligámos a luz da cozinha e acendeu. Vamos para ligar as outras luzes e o meu marido tinha o quadro desligado, liga-o e a luz foi abaixo, nunca mais acendeu”, explica, ao referir que o piloto também já deixou de dar sinal.
“Como nós, estão milhares. Não é meia dúzia, nem uma dúzia, são milhares. Só ainda não aceito – mas tenho de aceitar – porque é que sendo as luzes aqui da rua, nós não temos dentro de casa. Elas fazem falta dentro de casa, não é a iluminar a rua”, sublinhou.
O presidente da Junta de Freguesia da Caranguejeira, Jorge Dias, explica que a luz, aos poucos, “está a voltar”, mas “a rede em baixa está muito danificada”, o que leva a constantes quebras na energia.
Esta avaria, reportada no mesmo dia à Câmara de Leiria, deveu-se a um “pico de tensão” e, na terça- feira, foi solucionada, garantiu o autarca ao JORNAL DE LEIRIA.