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Iuri e Emanuel: contra o preconceito, estudar, estudar...

12 mar 2020 09:52

Iuri e Emanuel, estudantes do Politécnico de Leiria, fazem parte do grupo ainda restrito de alunos de etnia cigana que conduziram os seus estudos com sucesso até ao ensino superior. Mas para as meninas, reconhecem os jovens, o sonho dos livros continua muitas vezes embargado

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Iuri e Emanuel partilham a etnia e o gosto pelos livros da escola
Ricardo Graça
Daniela Franco Sousa

Iuri Vieira, de 22 anos, e Emanuel Fernandes, de 32, ambos estudantes do Politécnico de Leiria, são duas grandes razões de orgulho junto da sua comunidade. Sem deixar de respeitar os tradicionais valores da cultura cigana, os jovens enriquecem os seus conhecimentos e demonstram que pertencer a determinada etnia não é entrave para a formação, assim haja empenho e respeito pelas diferenças de cada um. No entanto, reconhecem, para as meninas ciganas, o sonho dos estudos ainda vai tropeçando nas questões de género.

Quando aos 18 anos ingressou pela primeira vez no ensino superior, para fazer o curso de Direito, na Universidade Lusíada, Emanuel Fernandes ainda se via como uma espécie de raridade. Contaram-lhe que, antes dele, só outro rapaz de etnia cigana tinha passado pelas salas daquela faculdade.

Embora tenha sido sempre bom aluno, Emanuel não teve à época possibilidade de completar a licenciatura. O pai faleceu quando ainda estava a formar-se e o jovem teve de abandonar os estudos para dar resposta a outras prioridades, junto da família. Desde então, Emanuel dedicou- -se às feiras, aos mercados, e também chegou a ser vendedor de automóveis. Casou entretanto e teve duas filhas. E foi com a sua esposa que inaugurou recentemente uma loja de material ortopédico.

Mas nunca perdeu o seu foco. Hoje, aos 32 anos, Emanuel está finalmente a concretizar o sonho que tinha adiado. Voltou aos estudos e frequenta o curso técnico superior profissional de Intervenção Social e Comunitária, agora mais próximo de casa, no pólo de Torres Vedras do Politécnico de Leiria. É a formação que melhor se ajusta à sua actividade actual, conta Emanuel, que trabalha como facilitador na Câmara Municipal de Torres Vedras, a mediar e a promover a integração da comunidade cigana naquele território.

E é com grande prazer que tem conhecido outros estudantes de etnia cigana no ensino superior. São ainda poucos, reconhece, mas o número vai crescendo e é hoje bem mais representativo do que era há 10 ou 15 anos. “Ainda não é rotina, mas felizmente já se encontram mais casos como o meu”, conta Emanuel.

Até terminar o ensino secundário, o jovem nunca sentiu qualquer contrariedade por ser de etnia cigana. Não tinha de anunciar, mas também não tinha de esconder as suas origens. Até porque estudava num local relativamente pequeno, onde todos se conheciam e se davam bem. Ao ingressar no ensino superior, continuou a proceder da mesma forma. Nunca o anunciou, mas também nunca o escondeu. “Quando aos 18 anos entrei na faculdade, era de tal modo incomum encontrar universitários de etnia cigana, que, mesmo que vissem em mim alguns traços diferentes, nunca associavam que eu fosse desta etnia”, recorda Emanuel.

Além disso, defende, “isto é como se eu for do Benfica, ou se eu for testemunha de Jeová. Não preciso andar a publicitar que o sou”. “É claro que, à primeira conversa que surgiu sobre o tema, entre os meus colegas, antes que apontassem o dedo aos ciganos, eu expliquei logo que esta era a minha etnia”, conta Emanuel. “E não posso dizer que a partir daí tenha tido uma má experiência”, salienta o jovem. Porque dos outros alunos só recebeu atitudes de “surpresa” e de “curiosidade”.

“O racismo é o medo do que não se conhece. E quando os meus colegas têm ali uma pessoa, a quem têm possibilidade de perguntar o que querem, esse medo desvanece”, observa Emanuel.

Quando a tradição (não) é entrave

Emanuel entende que as tradições ciganas não devem ser um entrave para a formação de quem pertence à comunidade. E dá o exemplo da sua família, que aos poucos se vai adaptando aos novos tempos, sem que para isso tenho desrespeitado a sua cultura.

Como irmão mais novo, Emanuel diz que já beneficiou destes novos tempos, onde andar na escola é bem visto pela sua comunidade. Aliás, salienta o jovem, “nunca esteve em causa eu não estudar”. E até mesmo o matrimónio, acrescenta Emanuel, nunca foi questão que interferisse no seu percurso académico.

Casou aos 25 anos, numa fase que já todos os seus amigos tinham dado o nó, e entende que não foram os estudos que adiaram o casamento, nem foi o casamento que tolheu a sua vontade de estudar. Pelo que, no seu caso, o matrimónio não serviu como pretexto para o abandono escolar.

Mas teria sido igual se tivesse nascido mulher? Emanuel explica que as suas três irmãs mais velhas não estudaram, porque à época “isso nem sequer era tido em consideração”. “As crianças faziam o ensino primário e saiam. Foi o que aconteceu com as minhas irmãs”, aponta o jovem. Actualmente, observa Emanuel, as pessoas já começam a perceber que o negócio das feiras e dos mercados deixou de ser rentável, e muitas famílias ciganas, pelo menos as mais liberais, já consideram que a formação dos filhos é uma ferramenta importante para viverem realizados e com desafogo económico.

Entretanto, Emanuel também se tornou pai. Tem duas meninas pequenas. Terão elas a oportunidade de estudar que não tiveram as suas tias? A pergunta suscita-lhe uma expressão de dúvida. Entre um tom que é tanto de sério como de brincadeira, Emanuel diz fazer gosto em que as filhas estudem, mas num colégio de freiras ou numa escola só para raparigas.

“A comunidade cigana não é contra a educação. O problema é a exposição da mulher. A comunidade cigana é excessivamente protectora com a mulher” reconhece o jovem pai. Emanuel antevê mudanças a este nível, mas o caminho ainda levará algum tempo. A educação das raparigas “será como todos os rasgos de modernidade que têm acontecido na comunidade cigana: as primeiras pessoas vão ser muito criticadas até que outros sigam esse trajecto”.

A importância de ter um modelo a seguir

Aos 22 anos, Iuri Vieira, estudante de Gestão Turística e Hoteleira na Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar, em Peniche, é um verdadeiro modelo a seguir. Trabalhador e estudante exemplar, actualmente finalista naquela escola do Politécnico de Leiria, Iuri Vieira foi uma das três pessoas consideradas Role Model pela Câmara Municipal de Torres Vedras, no âmbito da iniciativa Network for Role Models em Portugal, promovida pela Agência Nacional Erasmus+ para a Educação e Formação.

Tal como o seu conterrâneo Emanuel Fernandes, também Iuri Vieira é um jovem de etnia cigana que chegou com sucesso ao ensino superior. A maior parte das pessoas da sua família tem tido no negócio das feiras o seu sustento.

Mas Iuri sempre se mostrou bom aluno e os pais sempre o incentivaram a ser o melhor estudante que pudesse, de forma a poder realizar- se na profissão que desejasse. E assim aconteceu. Sempre que foi preciso, o jovem ajudou a família nas feiras, mas sem perder o foco nos estudos. E, ao mesmo tempo, tem batalhado pela sua autonomia financeira como colaborador de loja num supermercado.

À imagem de Emanuel, também Iuri conta que viver e estudar num local relativamente pequeno, onde todos se conheciam, proporcionou uma integração plena do estudante até ao ensino secundário. O ingresso no ensino superior também não representou qualquer problema. A única preocupação surgiu durante a fase em que procurava integrarse no mercado de trabalho. Nessa altura, recorda, preferiu manter em segredo a sua origem étnica, pelo menos até ganhar a amizade e a confiança da restante equipa de colaboradores.

“De início tentei esconder. Senti alguma pressão para isso. Pensei que bastaria acontecer alguma coisa errada para que os olhares recaíssem sobre mim. Para me proteger e não me prejudicar, tentei esconder a minha etnia”, conta Iuri. Aos poucos, o jovem foi-se dando a conhecer e a etnia é hoje um pormenor, que nada implica com a seu desempenho nem com a empatia que conquistou junto de todos.

Tal como Emanuel, também Iuri entende que, aos poucos,“já se começa a dar também uma oportunidade às raparigas ciganas [para que possam estudar]”. Mas não será em todos os agregados. “Depende de família para família. Se for conservadora não aceita a ideia. Se for menos, já dará essa oportunidade”.

E é no sentido de promover a integração de pessoas de etnia cigana, também através do ensino, que a Câmara de Torres Vedras tem trabalhado. E mais do que discursos, os jovens alunos precisam de se sentir apoiados e motivados por outros estudantes, bem sucedidos da sua etnia, explica Ana Umbelino, vereadora da Desenvolvimento Social naquela Autarquia, que passa a identificar algumas iniciativas concretas.

A autarca explica que a Autarquia foi desafiada para participar na Network for Role Models em Portugal, uma iniciativa que pretende envolver cidadãos que se destacam nas suas comunidades para promover a inclusão social, prevenir a exclusão e a radicalização, incentivar a cidadania activa e criar o compromisso com os valores europeus.

O seu Município propôs, como modelos, uma pessoa invisual e duas pessoas de etnia cigana, entre as quais Iuri Vieira. “A escolha fazia sentido, até porque a Autarquia tem em curso um plano local de integração da comunidade cigana, desenvolvido com elementos da comunidade”, realça a vereadora.

Uma das acções incluídas neste plano é a tutoria escolar. Aos sábados, jovens alunos de etnia cigana recebem explicações e fazem os seus trabalhos de casa num espaço proporcionado pela Autarquia. Iuri e Emanuel também já dinamizaram algumas dessas sessões, “onde se pretende estimular os jovens, para que construam um projecto de vida mais condizente com os seus sonhos”, refere a vereadora. Mais do que os discursos, são os exemplos vivos e positivos que transformam as formas de pensar, defende a autarca.

Para Tatiana a felicidade na escola tem os dias contados

Chegou ao 9.º ano sem ter reprovado. Gosta dos desafios da Matemática e sonha ser Educadora de Infância. Mas para Tatiana Monteiro a felicidade de estudar tem um prazo. O pai já decidiu. A menina está prestes a completar 15 anos e, por isso, mal termine este ano lectivo, é hora de ir para casa. No lar, esperam- -na irmãos e uma sobrinha para tomar conta. E ajudar a família nas feiras é sempre outra possibilidade.

Aluna na Escola Básica Dr. Correia Mateus, em Leiria, Tatiana mostra-se conformada com a ideia de abandonar os estudos. “Aceito bem, eu também não queria seguir...”, conta a menina, que só vai guardar boas recordações da escola. Afinal, sublinha, sempre se sentiu bem tratada por professores e colegas.

Nuno Monteiro, pai da Tatiana, não esconde que a decisão se prende com o facto de ser mulher. Sabe que a escolaridade mínima obrigatória implica que a filha complete o ensino secundário, sabe que durante muito tempo será contactado para que a filha dê continuidade aos estudos, mas explica que, para muita gente da sua comunidade, mantê-la na escola, em contacto permanente com rapazes e raparigas, saídas para trabalhos de grupo, visitas de estudo, significaria “ser posto de parte”.

Mesmo que a opção da filha não seja casar com um rapaz de etnia cigana, Nuno Monteiro faz questão de que todos saibam que ela cresceu tendo cumprido as tradições que resguardam a mulher desta etnia.

“Sei que há uma advogada cigana. Até pode ser um grande orgulho”, reconhece Nuno Monteiro. O problema é tudo aquilo que essa menina e a família terão ouvido da sua comunidade, salienta o progenitor.

Alexandre Santos, assistente social, coordena a equipa do Giro Ó Bairro, um projecto da InPulsar – Associação para o Desenvolvimento Comunitário, que visa a intervenção comunitária no Bairro Social Cova das Faias, em Leiria, direccionado maioritariamente para famílias de comunidade cigana. É nas instalações do Giro Ó Bairro, na Cova das Faias, que cerca de 70 crianças daquele bairro recebem apoio ao estudo e desenvolvem actividades lúdico-padagógicas.

Alexandre Santos explica que ainda vai conhecendo casos de alunos que, solicitando emancipação para casar, aos 16 anos, não precisam de cumprir o ensino mínimo obrigatório. E, em termos de aproveitamento, salienta também que grande parte dos alunos de etnia cigana reprovam durante o 1.º ciclo do ensino básico.

O insucesso nesta fase prende- se com o facto de as crianças ciganas ficaram, regra geral, ao cuidado da família até ingressar na escola. Sem uma primeira experiência de ensino pré-escolar, torna-se mais difícil a adaptação aos horários e às regras em sala de aula. Sobretudo numa comunidade onde tanto o lazer como o trabalho se realizam ao ar livre, salienta Alexandre Santos.

Com 9 anos e a frequentar o 3.º ano, no mesmo agrupamento de escolas, Ilídio Monteiro, irmão da Tatiana, é disso bom exemplo. Já repetiu um ano. Ambiciona ser músico ou feirante e até ponderou construir casas. Mas já desistiu da ideia precisamente pela rigidez dos horários que teria de cumprir.

Aos 16 anos, Afonso Monteiro, seu primo, já reprovou duas vezes. Explica que o seu objectivo é completar o ensino secundário e que já pensou em seguir a carreira militar. Por agora, dá-se bem com Física-Química e diz-se integrado e respeitado por uma “‘stora’ que ralha com quem tem de ralhar”, sem beneficiar ou prejudicar alunos pelo facto de serem ciganos.

Também morador na Cova das Faias, Telmo Amaro, de 13 anos, frequenta o 6.º ano no mesmo agrupamento escolar. Justifica a retenção no 1.º e no 2.º ano com a ausência de transportes públicos no local onde morava. Mas agora gosta da escola e até gostava de poder concluir o secundário com sucesso.

Esse é também o desejo do seu pai, Paulo Amaro, de 36 anos, que se encontra desempregado, a fazer cursos para tentar juntar mais formação ao ensino primário que deixou por completar quando era miúdo.

Diz que não quer para os seus filhos os problemas que a sua geração está a sentir. Os tempos mudaram e ser feirante já não é rentável. Gostaria, no entanto, que as crianças de etnia cigana pudessem ser mais respeitadas em contexto escolar. O preconceito dos colegas é muitas vezes fomentado nas suas famílias, aponta Paulo Amaro, e os professores acabam por ter um trabalho redobrado, não só a ensinar como a mediar relações nem sempre respeitosas da cultura de cada um.

 

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