Sociedade

Presidente da Junta de Freguesia de Santiago de Litém, Pombal: “Uma freguesia não é apenas estradas, edifícios e equipamentos. É uma comunidade”

6 set 2026 12:00

Guilherme Domingues gostaria de conseguir instalar uma zona empresarial, que alavanque o emprego e economia, e concretizar a Casa do Dinossauro, aproveitando o património paleontológico local

presidente-da-junta-de-freguesia-de-santiago-de-litem-pombal-uma-freguesia-nao-e-apenas-estradas-edificios-e-equipamentos-e-uma-comunidade
Guilherme Gameiro Domingues
Fotografia cedida por Guilherme Domingues

Quais as suas principais preocupações enquanto autarca?

A minha principal preocupação é muito simples: não quero que Santiago de Litém se resigne a ser uma freguesia onde as pessoas vivem, mas onde pouco acontece. Temos um território com uma dimensão significativa, uma população dispersa por cerca de 70 lugares, património, recursos naturais, uma localização privilegiada e, sobretudo, pessoas com capacidade, iniciativa e vontade de fazer. O que precisamos é de transformar tudo isto em condições concretas para viver, trabalhar, investir e criar família em Santiago de Litém. Uma das minhas maiores preocupações é combater a perda de população e a falta de oportunidades para os mais jovens. Isso obriga-nos a olhar para questões muito concretas: habitação, educação, emprego, mobilidade, saneamento, segurança rodoviária e qualidade dos espaços públicos. Outra preocupação é a desigualdade territorial. Santiago de Litém é uma freguesia extensa e não pode ser pensada apenas a partir do seu centro. Há lugares que continuam a ter problemas básicos de infraestrutura e acessibilidade que, em pleno século XXI, já não são aceitáveis. Uma junta de freguesia não pode resolver tudo sozinha e é precisamente por isso que defenderei, junto da câmara municipal, os investimentos estruturantes de que precisamos. E há uma preocupação que considero particularmente importante: não quero que Santiago de Litém passe mais um mandato apenas a gerir carências. Quero que passe a discutir projetos, investimento e futuro. Temos condições para exigir mais. E vamos exigir. Ao mesmo tempo, preocupa-me a necessidade de reconstruir o sentimento de pertença. Uma freguesia não é apenas estradas, edifícios e equipamentos. É uma comunidade. Temos de voltar a criar razões para as pessoas se encontrarem, participarem e sentirem orgulho na terra onde vivem. É essa combinação entre qualidade de vida, desenvolvimento económico, identidade e coesão social que considero essencial.

 

Que visão tem para o futuro da freguesia e o que gostaria de alcançar durante o seu mandato?

A minha visão é a de uma Santiago de Litém mais forte, mais dinâmica e mais reconhecida, dentro e fora do concelho de Pombal. Não quero simplesmente uma freguesia mais bonita. Quero uma freguesia mais competitiva, mais atractiva para viver e mais capaz de criar oportunidades. Durante este mandato gostaria de começar a concretizar uma mudança de paradigma: passar de uma freguesia que muitas vezes espera que as coisas aconteçam para uma freguesia que define prioridades, cria projetos e reivindica o investimento necessário para os concretizar. Quero ver avançar a Zona de Localização Empresarial, porque precisamos de emprego e de actividade económica. Quero criar condições para que uma empresa possa olhar para Santiago de Litém e pensar: é aqui que quero investir. Quero concretizar a Casa do Dinossauro, transformando o nosso património paleontológico numa oportunidade educativa, turística e económica. Temos algo que não pode ser replicado noutra freguesia: temos uma história que vem de milhões de anos e que pode ajudar a escrever o nosso futuro. Quero uma escola preparada para o futuro, com a ampliação do pólo escolar e novas respostas para o pré-escolar. Quero melhores espaços públicos, um parque infantil e geriátrico, um parque verde ligado ao corredor ribeirinho do Arunca, melhores condições de mobilidade e segurança, e quero finalmente resolver problemas estruturais como o saneamento onde ele ainda não existe. Quero também recuperar equipamentos e espaços que fazem parte da nossa identidade, desde o mercado aos largos e à envolvente da igreja matriz, e garantir que o próprio edifício da junta está à altura dos serviços que queremos prestar. Mas há uma ambição que está acima de todas estas obras: quero que Santiago de Litém volte a crescer. E crescer não significa apenas construir. Significa ter mais crianças, mais jovens, mais empresas, mais emprego, mais comércio, mais vida nas nossas ruas e mais pessoas a escolher Santiago de Litém para viver. E quero que esse crescimento aconteça sem perdermos aquilo que somos. Se, no final deste mandato, conseguirmos deixar projetos estruturantes lançados, obras concretizadas, novas oportunidades para os jovens e uma comunidade mais mobilizada e orgulhosa da sua terra, então teremos dado um passo importante. O meu objectivo não é que daqui a quatro anos digam que a junta fez muitas coisas. Quero que digam que Santiago de Litém mudou. E, sobretudo, quero que quem hoje é jovem possa olhar para esta freguesia e não pense que, para ter futuro, tem necessariamente de sair daqui. Santiago de Litém tem recursos para crescer. Tem pessoas para crescer. E, acima de tudo, tem direito a crescer.

 

Se tivesse orçamento ilimitado para um projecto, qual seria?

O orçamento ilimitado vinha mesmo a calhar para implementar a Zona de Localização Empresarial, pensada à medida da freguesia, mas com enorme capacidade de atração. Não imagino uma grande zona industrial, mas um espaço qualificado e flexível, com alguns espaços empresariais, coworking, salas de reunião e formação, serviços partilhados e incubação de projectos. Um espaço pequeno na dimensão, mas capaz de atrair pessoas, ideias, empresas e oportunidades. E esta não é uma ideia que dependa de um orçamento ilimitado. É um caminho que queremos começar a construir mesmo com recursos muito limitados, procurando parceiros e criando, passo a passo, as condições para que possa concretizar-se.

 

Imagine que a sua freguesia é um livro. Que título ou que livro escolhia?

Escolheria a Ropicapnefma - Mercadoria Espiritual, de João de Barros. É uma escolha que tem um significado muito especial. Publicada em 1532, é uma obra pioneira do Humanismo português, escrita em Santiago de Litém, num período de profundas transformações na Europa. Através do diálogo entre a Razão, o Tempo, a Vontade e o Entendimento, João de Barros questiona o homem, a moral, o conhecimento e a fé. E é precisamente essa capacidade de questionar o seu tempo que torna a obra surpreendentemente actual. Também hoje vivemos num período de profundas transformações e somos obrigados a discutir o futuro do trabalho, a tecnologia, a inteligência artificial, o conhecimento, o papel das instituições e, nas nossas comunidades rurais, o envelhecimento e a perda de população. Também Santiago de Litém tem de encontrar esse equilíbrio entre a memória e o futuro, entre aquilo que recebemos e aquilo que queremos construir.

 

Se pudesse convidar uma figura histórica ou celebridade para ser presidente honorário da junta por um dia, quem seria e porquê?

Escolheria João de Barros. Não apenas porque viveu durante vários anos em Santiago de Litém, mas sobretudo pelo homem que foi. Foi historiador, escritor, humanista e pensador. Esteve envolvido na administração, na economia e na expansão de Portugal, e nas grandes decisões do seu tempo - e que tempo foi! O século XVI, o tempo dos Descobrimentos, de África, do Brasil, da Índia e da abertura de Portugal ao mundo. Na Casa da Índia teve acesso a informações vindas dos quatro cantos desse mundo e transformou-as em conhecimento e numa obra historiográfica pioneira. Foi um homem que não se limitou a viver o seu tempo: procurou compreendê-lo, antecipá-lo e, de certa forma, transformá-lo. É precisamente essa atitude que gostaria de trazer para Santiago de Litém: conhecer as nossas raízes sem ficar preso ao passado, olhar para fora, ter ambição, arriscar e estar na vanguarda em vez de esperar que os outros nos mostrem o caminho. Afinal, João de Barros mostra-nos que não é preciso estar no centro do mundo para pensar o mundo. E essa é talvez a mensagem que mais gostaria que ele nos deixasse: uma terra pequena não tem de ter uma ambição pequena.

 

Indique três locais imperdíveis na sua freguesia.

É difícil escolher apenas três, porque Santiago de Litém tem uma riqueza patrimonial, histórica e paisagística muito significativa. Mas destacaria três lugares que permitem conhecer diferentes dimensões da nossa identidade. O Santuário Mariano de Nossa Senhora dos Milagres, com o seu conjunto formado pela capela, forno e coreto, é um dos lugares mais especiais da freguesia. É um dos santuários marianos mais antigos da região Centro, um local de peregrinação carregado de história, devoção e memórias, profundamente ligado à identidade da nossa comunidade. A Casa da Cultura de Santiago de Litém é um espaço de preservação e divulgação da nossa memória e do nosso património. É também um ponto de partida para conhecer a riqueza paleontológica do território, permitindo obter informação sobre as Jazidas dos Andrés e da Junqueira. A paisagem que se alcança a partir da Capela de Nossa Senhora da Conceição é outro dos locais que considero imperdíveis. É um daqueles pontos onde basta parar alguns minutos para perceber a beleza e a dimensão do nosso território. Mas há um lugar que não posso deixar de referir: a Igreja Matriz de Santiago de Litém. Para quem nos visita, conhecê-la é obrigatório. É um elemento central da nossa identidade e do nosso património, onde se destaca o imponente altar trazido de Lisboa pelo padre Joaquim dos Santos Lopes Praça.


BI da autarquia

Presidente: Guilherme Manuel Gameiro Domingues

Idade: 59 anos

Profissão: Advogado

 

Freguesia de Santiago de Litém

Data de criação: Freguesia histórica, com origem no período da formação da nacionalidade portuguesa.

Área: 31,02 km²

População: 2.237 habitantes (Censos)

N.º de eleitores: 1.838