Economia

Tekever, o unicórnio das Caldas, quer ser Pégaso e voar 500 milhões de euros mais alto

17 ago 2026 18:00

Empresa que concebe nas Caldas da Rainha o drone AR5 está em conversações com investidores para levantar até 500 milhões de euros, na mesma semana, assinou com a Força Aérea Portuguesa o contrato que leva os seus aparelhos à vigilância da Zona Económica Exclusiva

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Ricardo Mendes, CEO da Tekever junto a um drone AR5

Um aumento de cinco vezes o valor mais em pouco mais de um ano.

A startup Tekever, que concebe nas Caldas da Rainha o drone AR5, está em conversações com investidores para levantar até 500 milhões de euros, numa operação que avaliaria a empresa em 5,5 mil milhões, ou seja, cinco vezes o valor alcançado no ano passado.

A notícia foi avançada a 13 de Agosto pela Bloomberg.

Segundo as fontes citadas por esta agência, o capital destina-se a financiar aquisições e a sustentar a expansão, e está a ser procurado junto de investidores novos e actuais.

A Bloomberg ressalva, contudo, que as negociações continuam em curso e podem ainda sofrer alterações.

Em Maio de 2025, a ronda que fez da tecnológica o sétimo unicórnio português, com a Ventura Capital, a Baillie Gifford, a Iberis Capital, a Crescent Cove e o Fundo de Inovação da NATO, colocou a avaliação acima dos 1,2 mil milhões de euros.

Fundada em Lisboa em 2001, a firma começou por desenvolver software, antes de avançar para a construção de aeronaves destinadas a missões de reconhecimento e recolha de dados.

A guerra na Ucrânia colocou os aparelhos não tripulados no centro das operações militares e fez subir o interesse dos investidores pelo ramo europeu da tecnologia de defesa, que apresenta aos governos plataformas equipadas com sensores e sistemas de navegação como alternativa mais barata e mais flexível aos equipamentos dos fabricantes tradicionais.

Além do emprego militar, os drones da Tekever cumprem missões de vigilância quer seja de fogos florestais, como acontece no Canadá, como marítima ao serviço do Ministério do Interior britânico e da Agência Europeia da Segurança Marítima.

Força Aérea Portuguesa adopta AR5

O drone que já vigia o Mediterrâneo para a Agência Europeia da Segurança Marítima, que voa na Ucrânia desde 2022 e que o Ministério da Defesa britânico escolheu no início deste mês para equipar o seu Exército vai agora servir também Força Aérea Portuguesa (FAP), além de ter sido concebido nas Caldas da Rainha.

Além das plataformas, o contrato contempla a formação dos operadores, o fornecimento da estação de controlo terrestre e o sistema de missão Atlas.

A entrega dos aparelhos e a obtenção da capacidade operacional inicial estão previstas para Setembro de 2026.

Os AR5 serão empregues em missões de vigilância marítima, segurança e defesa, monitorização da Zona Económica Exclusiva e apoio a missões de interesse público, entre elas o Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais, a segurança costeira e a protecção ambiental.

"A incorporação do sistema AR5 representa um reforço significativo das capacidades operacionais da FAP", afirma o tenente-coronel Luís Henriques, coordenador operacional do grupo de trabalho AR5.

O responsável destaca o "maior alcance, persistência e flexibilidade operacional" da plataforma e sublinha que a integração permitirá reforçar a capacidade nacional de monitorização da ZEE e de apoio a "um vasto conjunto de missões de interesse público".

Do lado da empresa, Pedro Petiz, director de Desenvolvimento Estratégico, coloca a tónica na origem nacional da tecnologia.

"Este contrato coloca uma capacidade autónoma desenvolvida e produzida em Portugal ao serviço da protecção do nosso espaço aéreo e marítimo", declara, acrescentando que a Tekever vai cooperar com a FAP "na consolidação e desenvolvimento de uma capacidade operacional própria que reforça a autonomia, a prontidão e a capacidade de resposta nacional".

Vinte horas no ar e 50 quilos de carga

O AR5 é um sistema aéreo não tripulado de asa fixa, de média altitude e longa autonomia, concebido para a recolha de informação em áreas extensas.

Tem autonomia de voo até 20 horas, transporta até 50 quilos de carga útil e integra comunicações via satélite, o que lhe permite operar para lá da linha de vista rádio.

Descola de pistas curtas ou não preparadas, característica que lhe garante flexibilidade nos cenários mais exigentes.

Toda a cobertura em jornaldeleiria.pt/tags/Tekever

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Das Caldas da Rainha ao campo de batalha

O contrato com a Força Aérea fecha um ciclo curioso: a Tekever chega ao Estado português depois de ter conquistado clientes em Londres, Paris, Bruxelas e Kiev. E fá-lo com um aparelho desenhado em cerca de 90% do AR5 nas Caldas da Rainha, onde a empresa mantém o centro de engenharia, complementado desde Agosto de 2025 por um pólo em Leiria que emprega meia centena de investigadores e engenheiros, muitos deles diplomados pelo Instituto Politécnico de Leiria, actual Universidade de Leiria e Oeste.

Linha do tempo

Em Maio de 2025, aTekever investe no Reino Unido e é unicórnio. A tecnológica fechou uma ronda de investimento que a colocou acima dos 1,2 mil milhões de euros de avaliação, conquistando o estatuto de unicórnio, o sétimo português.

No mesmo anúncio, a empresa revelou que iria produzir um drone de guerra electrónica para a Real Força Aérea britânica, num acordo oficializado pelo ex-primeiro-ministro Keir Starmer e apontado como um dos mais relevantes alguma vez conseguidos por uma empresa portuguesa da defesa.

A empresa, em Julho de 2025, adquiriu a Cocoon Experience, empresa de desenho de serviços e experiência de utilizador, sem revelação de valores.

As duas já colaboravam há anos em iniciativas civis. A equipa da Cocoon, constituída por cientistas comportamentais, estratégas de desenho e especialistas em interface, passou a trabalhar em exclusivo para o grupo.

Ricardo Mendes, o CEO, justificou a operação com a necessidade de "manter o utilizador no centro do desenvolvimento dos produtos".

No mês seguinte, Julho de 2025, a Tekever abre escritório na Ucrânia, após meses a fornecer sistemas não tripulados às forças ucranianas, sobretudo o modelo AR3.

Os aparelhos cumprem missões de reconhecimento, vigilância, detecção de alvos e orientação, e o grupo disponibilizou tecnologia avaliada em cinco milhões de euros.

A decisão consolidou a Ucrânia como banco de ensaio operacional da tecnologia desenvolvida nas Caldas da Rainha, num conflito decisivo para o percurso comercial da empresa.

Em Agosto do mesmo ano, a Tekever, unicórnio português dos drones, aterrou em Leiria com novo pólo. A1 de Agosto abriu portas de uma unidade com meia centena de investigadores e engenheiros, muitos deles diplomados do IPL.

Foi a chegada formal do unicórnio à cidade do Lis, a complementar o centro de engenharia das Caldas da Rainha e a fábrica de Ponte de Sor.

Em Setembro de 2025, a Tekever adquiriu aeroporto no País de Gales para testar drones militares com IA. A empresa comprou o West Wales Airport, na costa oeste do País de Gales, para o transformar no seu centro de operações britânico.

É ali que passa a testar e a operar os drones com inteligência artificial integrada destinados a clientes do Reino Unido e a mercados internacionais.

A aquisição insere-se no programa Overmatch, avaliado em 460 milhões de euros, cujo fim é introduzir IA em aparelhos destinados às forças armadas de países da NATO.

Ricardo Mendes justificou a decisão com a procura crescente por sistemas autónomos.

Em Outubro de 2025, a Tekever investe 100 milhões em França. O anúncio foi feito pelo próprio grupo e formalizado na oitava Cimeira Internacional de Negócios Choose France, a convite de Emmanuel Macron.

São 100 milhões de euros a aplicar ao longo de cinco anos, com a criação de Centros de Excelência para a Autonomia, mais de uma centena de empregos qualificados e uma presença industrial alargada na Occitânia e na Nova Aquitânia.

A empresa enquadrou o investimento no reforço da soberania tecnológica e estratégica europeia.

Chegou o Ano Novo e, em Janeiro de 2026, os Drones de Caldas da Rainha combatem tráfico no Mediterrâneo. Desenvolvidos em cerca de 90% nas Caldas da Rainha, os AR5 operam a partir da Base Aérea de Istres-Le Tubé, em França, em articulação com a Marinha e os serviços alfandegários franceses.

As missões incluem monitorização de poluição e de emissões, detecção de pesca ilegal, combate ao tráfico de droga e à imigração ilegal, vigilância de fronteiras e busca e salvamento.

O serviço nasce de um contrato com a Agência Europeia da Segurança Marítima, em parceria com a francesa CLS, explicou ao JORNAL DE LEIRIA Tiago Nunes.

Em Abril de 2026, os Drones aéreos da Tekever estão a ser empregues e melhorados na Ucrânia. Os modelos AR3 e AR5 estão a ser continuamente aperfeiçoados a partir do retorno dos operadores ucranianos.

A frente russo-ucraniana é descrita como o ambiente de guerra electrónica mais exigente de que há memória, com interferência de GPS e bloqueio de sinal a obrigarem ao desenvolvimento de soluções mais resistentes.

A empresa coopera com fabricantes locais e patrocinou o hackathon Machine Offensive 2.0, aprofundando a ligação ao ecossistema ucraniano.

Em Junho de 2026, os Duques de Edimburgo visitaram instalações da TEKEVER em Peniche. O príncipe Eduardo e a princesa Sofia visitaram o centro de operações de voo e formação do aeródromo de Atouguia da Baleia, em Peniche, no âmbito das comemorações dos 640 anos do Tratado de Windsor.

Conheceram as plataformas AR3 e AR5, assistiram à montagem de sistemas em tempo real e a uma demonstração de voo, e foram informados da estratégia de expansão britânica, que prevê mais de mil postos de trabalho qualificados em cinco anos.

O grupo conta com mais de 1.300 colaboradores.

Em Junho de 2026, os Drones da Tekever vão combater incêndios no Canadá. O contrato foi firmado com o operador de aviação canadiano Phoenix Heli-Flight e alarga uma parceria iniciada em 2023.

Combina os AR3 de longa autonomia, sensores especializados e a plataforma informática Nova Maps, para fornecer informação operacional em tempo real às autoridades de Alberta, uma das províncias mais fustigadas por fogos florestais.

Paulo Ferro, vice-presidente para o Desenvolvimento Estratégico, sublinhou a intenção de alargar a presença no mercado canadiano.

A partir de Agosto de 2026, o Exército britânico vai voar com um drone das Caldas da Rainha. 

O Ministério da Defesa britânico escolheu o AR5 para o programa CORVUS, num contrato que pode atingir 400 milhões de libras, ou cerca de 467 milhões de euros, ao longo de dez anos.

É o maior negócio da história da empresa.

O aparelho substitui o Watchkeeper, em operação desde 2014 e em fim de vida, oferecendo maior autonomia, fiabilidade e capacidade de sensores, com até 50 quilos de carga útil.

A escolha assentou na experiência acumulada na Ucrânia, onde os sistemas ultrapassaram as 50 mil horas de voo.