Opinião

A guerra das musas

1 fev 2026 10:24

A ganância da posse é a verdadeira musa de quem faz a guerra

Na série medieval, Rei e Conquistador (King and Conqueror, HBO MAX), retrata-se a famosa batalha de Hastings (1066) entre Haroldo Godwinson e Guilherme da Normandia, que este último venceu, acabando assim o período anglo-saxónico de Inglaterra, e redefinindo a sua cultura, língua e futuro.

O argumento da série permite-se (obviamente para efeito televisivo) a algumas liberdades históricas. A cena final da batalha é francamente brutal, com corpos decepados, cavalos caídos, flechas espetadas nos olhos, e revelador da violência de que os homens são capazes.

Atualmente pensamos que as guerras ou “operações especiais” serão menos brutais, mas desenganem-se. A violência e a brutalidade não se detiveram, apenas se transformaram.

Porém, a parte mais interessante da série é a intriga política, económica e social que precede a invasão normanda. Porque demonstra que, afinal, o desígnio de uma nação é apenas uma noção romântica e subjugada à ambição cega, neste caso, dos reis que se defrontaram numa última escaramuça.

A ganância da posse é a verdadeira musa de quem faz a guerra.

Desde Trump a Putin, passando por Zelenskyy ou Netanyahu, ou pelos senhores da guerra africanos- agora esquecidos pelo whaboutismo- como Dagalo (Sudão) ou Haftar (Líbia). E este mesmo princípio vale para todos os impérios, desde o solicitamente silenciado otomano até ao mais sangrento de sempre, o britânico, onde o sol nunca se punha e o sangue nunca secava.

Se no conforto do sofá até nos podemos entusiasmar com a intenção de nação de Haroldo, ou pela perícia militar de Guilherme, é, nos dias de hoje, muito perigoso pensar que nas batalhas que se travam existe algum outro propósito que não servir a bolsa ou a ideologia dos líderes do mundo.

Vivemos a perversidade total da astúcia da razão hegeliana, que “instrumentalizava” homens como Napoleão para “fazer avançar o mundo”. O mundo parou e chovem setas de todo o lado. Temos de erguer um escudo simbólico no cimo de uma montanha para, contra todos, defender o nosso melhor discernimento e não nos deixarmos cair na tentação da guerra.

Texto escrito segundo as regras do novo Acordo Ortográfico de 1990