Opinião

A hipótese de um mundo vulnerável

11 mai 2020 11:42

As crises mundiais tornaram-se mais frequentes, globalmente mais intensas e a humanidade deve preparar-se para viver com essa realidade cíclica.

As primeiras duas décadas do século XXI têm sido evidenciadas por crises que são intensivamente mais globais.

Trata-se de um processo de distensão da relação espaço-tempo que define a globalização, segundo Anthony Giddens (1990), como «ocorrências locais que são moldadas por acontecimentos que se dão a muitos quilómetros de distância, e vice-versa».

Desde o início do século, houve três grandes crises mundiais: o 11 de Setembro em 2001, a crise financeira em 2008 e, actualmente, a pandemia Covid-19.

Foram três crises de natureza distinta – o terrorismo, os mercados financeiros e a saúde pública - mas com consequências progressivamente mais semelhantes.

A similitude entre as três crises é, sobretudo, a disseminação económica global. No ano do ataque às Torres Gémeas, o PIB mundial caiu para a metade do que tinha sido registado no ano anterior (4,8% em 2000 e 2,5% em 2001).

Em 2009, a economia mundial entrou em recessão com o PIB a cair – 0,6%. E, para este ano, o FMI prevê uma redução do PIB mundial de – 3%.

As crises mundiais tornaram-se mais frequentes, globalmente mais intensas e a humanidade deve preparar-se para viver com essa realidade cíclica.

Depois do terrorismo, das finanças e da saúde pública, é muito provável que a próxima crise mundial seja ambiental. Nick Bostrom, filósofo na Universidade de Oxford, tem desenvolvido um conjunto de análises sobre a «hipótese de um mundo vulnerável» (HMV). O que é a HMV?

Consoante o contínuo desenvolvimento das tecnologias, haverá um conjunto de conhecimento adquirido que, até um determinado ponto, poderá tornar possível a hipótese de uma devastação da civilização sob as condições de semi-anarquia.

E o autor define as «condições de semi-anarquia» com três características:

1) capacidade limitada do Estado para a adopção de uma vigilância preventiva contra as acções desfavoráveis à população;

2) capacidade limitada para uma governança global – ausência de mecanismos que possam solucionar problemas de coordenação global e, assim, proteger o bem comum geral;

3) grupos, cujos interesses específicos possam destruir a civilização. Conceptualmente, a devastação da civilização, sob a HMV e em contexto de semi-anarquia, é qualquer evento que possa causar a morte de 15% da população mundial ou uma redução duradoura do PIB de mais de 50% durante uma década. Inequivocamente, vivemos hoje num mundo de semi-anarquia que potencia a HMV.

Com vinte anos de século XXI, a Covid-19 é a terceira grande crise global e é quase certo que haja uma quarta no espaço de uma década. E é quase certo que seja ambiental e com consequências económicas gravíssimas.

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