Opinião

A solidariedade universal

3 jul 2020 09:21

Se o que conta nos negócios é o lucro, então todo o mundo deu à China, através de acordos lucidamente assinados, a produção de tudo e mais alguma coisa, garantindo maiores margens à custa de preços de produção baixíssimos.

Manifestava há dias junto de um amigo a minha estranheza por todos termos ficado dependentes da indústria chinesa no fornecimento de máscaras e ventiladores para o combate à Covid.

De tal modo, que no início da pandemia, sabendo que seria impossível fornecer aos cidadãos máscaras suficientes, se optou airosamente, nalguns países, por afirmar que as máscaras pouco efeito tinham no controlo do vírus.

Na contrarresposta o meu amigo mostrou-se indignado por toda esta hegemonia económica dos chineses, como se fosse algo imposto, esquecendo que ela resulta da nossa vontade e interesse.

Se o que conta nos negócios é o lucro, então todo o mundo deu à China, através de acordos lucidamente assinados, a produção de tudo e mais alguma coisa, garantindo maiores margens à custa de preços de produção baixíssimos.

Recordei-o que todos nós compramos em todo o lado artigos “Made in China” e que também ele, na sua área empresarial, tinha importado, com grande vantagem, alguns artigos da China, a 500 euros a peça - cópias exactas das que eram produzidas então na Europa por cerca de 2000 euros.

Lembrei-me então que no começo da década de 70 pouca gente terá levado a sério a análise de Alain Peyrefitte na obra Quando a China acordar…, e que veio a revelar-se de algum modo profética.

Mas estávamos em plena Guerra Fria e a China pouco ainda contava.

Antes da dissolução do “império” soviético e, com ela, o fim da Guerra Fria, tudo era mais fácil.

Dois blocos, dois modelos políticos, económicos e sociais diferentes e a escolha não dava muito que pensar.

O que cada bloco desejava era garantir, por todos os meios, a supremacia sobre o outro.

Nesta obrigatória tomada de partido, sempre se estranhou que um grande número de intelectuais europeus, recusando alguns dos princípios civilizacionais que os EUA despudoradamente queriam impor, tenham acabado por simpatizar com o estalinismo e depois com o maoismo, silenciando-se às atrocidades que esses regimes cometiam dentro e fora das suas fronteiras e para com os seu próprios cidadãos, numa dimensão que se veio a revelar inimaginável.

Enquanto que pelo próprio funcionamento da democracia americana a Guerra do Vietname era permitida aparecer-nos na sua brutalidade ao vivo e a cores, do outro lado, os gulags, as perseguições políticas, as purgas, as fomes, eram descaradamente silenciadas, omitidas e censuradas.

O paraíso de alguns intelectuais era, afinal, um verdadeiro inferno. E na realidade a China acordou, porque os blocos políticos da Guerra Fria acabaram e a China intuiu que a sua hegemonia só podia estabelecer senão a partir do ideal fraterno de “proletários de todoo Mundo, uni-vos!”, mas com simples pragmatismo económico: mão-de-obra barata, matéria-prima barata e abertura de certas regiões e respectivos centros de produção industrial às grande companhias mundiais.

E em vinte anos tudo mudou. Porque o que governa todo o mundo, tinha razão Gil Vicente, é afinal o dinheiro.

Com esta simples realidade, que tão fácil é de ver, a China acordou e ergue-se!

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