Opinião
Basta já!
Dói-me ver como são convidados comentadores que incitam à discriminação e à exclusão social de minorias
Uma vez um aluno, o João, pediu-me autorização para ter consigo, durante as aulas desse dia, um gatinho bebé.
Contou-me que a sua gata tinha tido uma ninhada e como não podia ficar com os animais andava, para não os abandonar, a arranjar pessoas que os quisessem acolher.
Um colega da turma iria ficar com o que ele tinha trazido, mas só poderia entregá-lo no final da manhã, após terminadas as aulas, logo, como não tinha onde deixar o gato, precisava de, até lá, estar com o bichano.
Ao considerar louvável o motivo apresentado pelo João para a presença do gatinho na aula, decidi ser tolerante e aceitar o pedido, porém com um “mas”, um grande “mas”!
É que fiquei a saber que o gato iria ser dado a um aluno que se vangloriava de já ter metido um pombo vivo no micro-ondas para ver o que lhe acontecia ao ligar o aparelho e a informação desse comportamento era intolerável para mim!
Expus aos alunos o meu ponto de vista e optámos por realizar de imediato uma assembleia de turma.
Nela e apesar do candidato a dono nos ter dito que a crueldade do seu discurso era apenas para impressionar os outros, decidimos, após discutirmos, entre outros assuntos, os limites ligados à liberdade de expressão e à tolerância, impedir a referida adoção.
Nessa altura, em 2004, estava longe de pensar que décadas depois regressaria a Karl Popper e ao seu “paradoxo da tolerância”, mas desta vez, por causa dos discursos de ódio que à custa da liberdade de expressão todos os dias, em diferentes palcos, se fazem ouvir e das ações inumanas praticadas por poderosos que afirmam agir em nome de Deus!
Custa-me assistir à tolerância que os “media” demonstram pelos fazedores de discursos de ódio que se mostram intolerantes para debater com os tolerantes os argumentos racionais que estes lhes apresentam.
Dói-me ver como são convidados comentadores que incitam à discriminação e à exclusão social de minorias, com o objetivo de fazer algo que já se sabe de antemão que eles se recusarão a fazer: debater com tolerância as ideias dos outros.
Revolta-me ver o palco que se dá aos defensores das ações do assassino Netanyahu ou do louco Trump ignorando-se que o “vale tudo”, em nome da tolerância e da liberdade de expressão, promove a indiferença na aceitação de tiranias e crueldades fazendo com que os valores éticos percam sentido.
Será que serem cúmplices dos intolerantes extremistas e dos assassinos já não lhes faz moça?
Perante isto, o que eu gostava mesmo era que os meios de comunicação, no seu mundo adulto, agissem como os meus jovens alunos: que fizessem sentir aos intolerantes populistas que a liberdade de expressão tem limites, que nem tudo o que dizem é aceitável, que nem tudo o que fazem é tolerável!