Opinião
Contra a Natureza nada somos
No pós-tempestade voltamos a ver o melhor e o pior de cada um, ou as respostas ao stress de fuga à luta
Existia em nós antes do dia 28 de janeiro a ilusão de que controlávamos o ambiente à nossa volta. A tempestade Kristin veio mostrar-nos que a Mãe Natureza tem força suficiente para nos derrubar sem que nada possamos fazer. As alterações climáticas existem e isto passará a ser o nosso novo normal, não é só nos outros países. Por isso, trancas à porta e é hora de repensar as nossas cidades e a nossa relação com o meio ambiente.
No pós-tempestade voltamos a ver o melhor e o pior de cada um, ou as respostas ao stress de fuga à luta. Eu prefiro focar-me na mobilização massiva das populações, que procurou entreajudar-se, proteger os mais frágeis e distribuir bens. Na limpeza quase imediata das cidades, no esforço de reposição da eletricidade e abastecimento de água. Sim, algumas povoações parecem esquecidas ainda. A viver como se estivéssemos ainda no início do século XX. Durante os 6 dias que tive sem abastecimento tentei brincar dizendo que vivia como a minha avó. O humor como uma forma de esconder vulnerabilidades.
Quando acabarmos de reconstruir casas, empresas e cidades, teremos de nos reconstruir a nós próprios. Sim porque a adrenalina neste momento esconde o trauma. Não há tempo para lágrimas nem lamúrias. Mas haverá daqui a uns tempos.
Já começam a surgir pessoas com queixas do foro psicológico. Medo do vento, medo da morte, medo de perder a casa, insónias, pesadelos, ataques de pânico, desânimo ou agravamento de sintomas ou condições já existentes.
Embora a resposta habitual à pergunta “como estás?” seja “tudo bem ou vai-se andando”, a verdade é que não está nada bem. E fazermo-
-nos de fortes ou deixarmos a saúde mental para segundo plano só vai piorar. Nesse aspeto quero saudar as câmaras municipais que já se mobilizaram e criaram gabinetes de apoio em crise de e de continuidade de psicologia para que seja de rápido acesso.
O trauma está presente e permanecerá se nada for feito. Faço um especial alerta para as crianças. Acreditamos que são resilientes mas ainda hoje uma pessoa conhecida me confidenciou que o filho de 8 anos disse à sua psicóloga que acreditava que iria morrer. Estejam atentos aos vossos filhos. Querer dormir na cama dos pais, aumento de birras, voltar a fazer chichi na cama ou nas roupas, febres e dores de barriga misteriosas são sinais de ansiedade.
E se já temos ansiedade ambiental, a nossa ansiedade relativa às guerras também irá aumentar. O poder destrutivo humano não deixa de me surpreender continuamente. Parece que vivemos os dias do fim.
Texto escrito segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico de 1990