Opinião
Entre o Cansaço e a Esperança
Vivemos numa globalização que nos aproxima de tudo, mas que muitas vezes nos afasta do essencial: tempo, presença, cuidado, relação
Sentei-me várias vezes para escrever este artigo e não consegui. Não por falta de temas. Pelo contrário. Parece impossível processar tudo o que está a acontecer no mundo.
Há sempre mais uma tragédia, mais uma crise política, mais populismo, mais uma guerra, mais um desastre climático. E, no meio disto tudo, continuamos a acordar cedo, responder a e-mails, trabalhar, estudar e fingir que conseguimos acompanhar esta avalanche constante de informação.
A verdade é que estamos cansados. Coletivamente cansados. A minha geração cresceu a ouvir que podia mudar o mundo. Mas depois crescemos entre crises económicas, pandemias, guerras transmitidas em direto, precariedade laboral e um planeta em emergência climática. Crescemos ligados à internet e habituámo-nos a viver permanentemente conectados a tudo: às notícias, às opiniões dos outros, às comparações, às injustiças, às expectativas. Nunca soubemos verdadeiramente o que é desligar.
Existe uma pressão silenciosa para continuarmos produtivos, motivados e inspiradores, mesmo quando o mundo parece desabar à nossa volta. Como se descansar fosse preguiça. Como se parar fosse fracassar. Como se tivéssemos de transformar constantemente ansiedade em performance.
Talvez seja isso que mais me assusta: a normalização do cansaço. Tornou-se banal dizer “estou bem, só cansada” como quem comenta o estado do tempo. Isto diz muito sobre o sistema que construímos. No meio desta pressão, o que me salva é o que acontece offline. São as conversas demoradas depois de um evento.
Os projetos construídos em conjunto. As pessoas que aparecem só para apoiar.
Num mundo cada vez mais individualizado, onde tudo parece competição, performance e marca pessoal, a comunidade é um dos maiores atos de resistência.
Vivemos numa globalização que nos aproxima de tudo, mas que muitas vezes nos afasta do essencial: tempo, presença, cuidado, relação. E talvez a solução não passe por exigir que as pessoas sejam constantemente extraordinárias. Talvez passe por construirmos comunidades, relações e políticas que permitam às pessoas respirar. Descansar. Viver com mais dignidade e menos sobrevivência. E talvez aí consigamos voltar a refletir, a criar e até a escrever um simples artigo de opinião, sem sentir o peso do mundo inteiro às costas.
Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990