Opinião

Histórias caseiras

28 ago 2021 10:25

Sugeriu que eu escrevesse o sonho no meu caderno de anotações importantes, pois um sonho daqueles, carregado de personificações e metáforas, não se podia esvanecer.

Estou de férias e de cabeça vazia, mesmo que queira não consigo pôr a atenção no sítio. Só em setembro se me desbloqueia a preguiça, daí que desta vez tenha pensado numa coisa diferente.

Não tenho exatamente um plano B alternativo à vida que levo. Devia ter, mas nada do que atualmente me inspira se coaduna com as obrigações da vida adulta. No entanto, sei que sempre gostei de escrever, de escrever coisas minhas, parece-me que assim as memórias se cristalizam, não sei. Acontece o mesmo com as fotografias, servem-me de friso cronológico e põem as vivências no sítio.

Normalmente escrevo pequenos textos, mas há uns meses participei num concurso de escrita. A ideia era escrever uma história infantil. Não ganhei e o texto ficou aqui quietinho nos meus documentos numa daquelas pastas amarelas. Não voltei a lê-lo. Falta-me um ilustrador para dar vida ao enredo e acreditar que alguém se interessa por aquilo que escrevi.

Mas hoje, por alguma razão, achei que podia partilhar a história convosco. Em vez de escolherem um desses livros de histórias que estão no quarto das crianças, podem optar por uma história caseira. Não há embalagem nem ilustrações, mas apela à imaginação e à curiosidade, espero eu! Aqui vai:

Chamo-me Júlia como a minha avó. A minha mãe diz que é o nome mais cheio de bondade e de amor que ela conhece. Não sei se entendo bem o que ela quer dizer, mas gosto de me chamar assim. Tenho quase 10 anos, gosto de ler e de dançar e tenho os olhos da cor da roupa que visto, ora verdes ora amarelados ou acastanhados, e adoro pão com queijo!

A minha mãe é friorenta, tem medo de aranhas e tem a pele branquinha. Segundo o meu pai, é feita de emoções e preocupa-se demais. Ela tem sempre tempo para mim e tira-me muitas fotografias, a mim e ao que se passa à nossa volta, porque como ela diz: a beleza está em todo o lado e as fotos põem o passado perto de nós outra vez. Só assim pude conhecer o meu avô que cá já não está e dar cara a uma recordação que não é minha, mas que também me pertence.

O meu pai toca guitarra, gosta de cozinhar e de comer. É muito mais barulhento que a minha mãe e em vez de avental, usa um boné enquanto cozinha. Conta-me histórias sobre as músicas e os músicos que admira e julgo que o seu objeto preferido seja a bateria que tem no sótão.

Ensinou-me a nadar e a andar de skate. É alto e eu acho que vou ser grande como ele, pelo menos é o que toda a gente me diz. Costumo fazer muitas viagens com os meus pais. Acampamos e vamos para todo o lado de autocaravana. Faça frio ou faça calor, levamos as bicicletas e os fatos de banho e um monte de
coisas que detesto preparar. Já visitamos quase toda a Península Ibérica (gosto de dizer assim porque já aprendi em estudo do meio que é a mesma coisa que Portugal e Espanha). Os meus primos, por vezes, vêm connosco. O Rodrigo nem sempre tem vontade, já está a ficar crescido, mas o Tomás é ainda uma criança como eu e vem sempre que pode. A minha mãe é apaixonada por eles, ou melhor, a minha mãe é apaixonada pela família toda e guarda-a religiosamente no coração como um tesouro que não queremos perder.

Adoro passear, sair com o sol a bater nos vidros, ligar o rádio e seguir caminho. Sabe a doce e soa a férias e a uma tranquilidade feliz. E é sobretudo na primavera que os passeios são mais bonitos e mais amenos, principalmente as caminhadas e todos os percursos pedestres que fazemos, grandes rotas e pequenas rotas como assinalam as placas no caminho. A natureza, até aí adormecida, começa a furar os meus sentidos e a fazer-se notar em toda a sua plenitude, acho até que é meio mágico fazer uma caminhada nesta altura do ano. Parece que saímos de um tempo estático a preto e branco e entramos num mundo colorido, cheio de movimento e de energias boas. Até custa menos sair da cama! (É que eu gosto muito de dormir.)

Reparem, o perfume das flores chega-nos ao nariz, ao mesmo tempo que os nossos olhos percorrem os campos pintados de várias cores. Sente-se aquele ar quentinho na cara e ouve-se a cantoria dos pássaros que andam e desandam no céu. Até o gosto da natureza podemos saborear. Eu, por exemplo, mesmo junto à casa da minha avó Bela, no largo da igreja, tenho um pinheiro manso gigante com uma grande sombra redonda, que todos os dias espalha pinhões pelo chão. O pinheiro é de toda a gente e eu gosto de quebrar a casca aos pinhões e atirá-los à mão cheia para dentro da boca. São macios e saborosos! Vocês gostam de pinhões? A minha mãe diz que quando era pequena se vendiam colares de pinhões nas feiras, mas eu nunca encontrei um assim.

Mas, pinhões à parte, sabem o que me deixa verdadeiramente de boca aberta e de olhos arregalados?

AS FLORES. Vocês não as acham incrivelmente, como hei-de dizer, espantosas e encantadoras? Bonitas, delicadas, misteriosas e principalmente muito, muito, muito vaidosas! Eu acho-as, aliás, muito parecidas com as pessoas. Embelezam a nossa vida e as nossas casas, dão-lhes cor e aroma e vestem roupas maravilhosas e coloridas cheias de pormenores. Algumas até parece que vão a uma festa daquelas com passadeira vermelha, sabem? Como nos óscares das
pessoas famosas. Elegantes, arranjadas, com mais ou menos camadas de pétalas, de saltos altos ou rasteirinhas, elas estão sempre lindas em suas vestes! Eu até acho que, em segredo, deve haver um estilista que desenha as roupas das flores ou até mesmo um arquiteto que pensa em todos aqueles detalhes geométricos. Vocês já viram a flor do maracujá? Só pode ter sido desenhada por quem percebe muito do assunto!

Talvez por ser tão observadora, um dia dei comigo, imaginem, numa tarde quente de maio, a planear uma passagem de modelos só de flores. Eu era a produtora do evento e as flores eram as protagonistas, naturalmente. Mas as flores eram mais que muitas e eu não sabia por onde começar. Flores grandes e pequenas, de diferentes formas, com cores variadas, com muitas e poucas pétalas, enfim… uma azáfama interminável que acabei por desistir desse exercício de imaginação. Pensava eu que tinha desistido, pois acabei a sonhar com tudo isso!

Foi um sonho que me pareceu durar a noite toda e na manhã seguinte, ao pequeno-almoço, não houve tempo para contar todos os pormenores aos meus pais como eu queria. Já sabem como é de manhã, é sempre uma correria com os horários, e eu tinha mesmo de parar de falar e engolir a torrada para não me atrasar. Ainda por cima, era o meu pai que me ia levar à escola naquele dia e quando é assim anda tudo a mil à hora.

No entanto, a minha mãe deu-me uma ideia. Sugeriu que eu escrevesse o sonho no meu caderno de anotações importantes, pois um sonho daqueles, carregado de personificações e metáforas, não se podia esvanecer. Mais uma vez, não percebi muito bem o que ela quis dizer com aquilo, mas achei uma óptima ideia porque uma coisa era certa, eu não podia nem queria esquecer o que tinha sonhado, talvez me desse jeito no futuro, quem sabe? Assim, logo no intervalo da manhã, depois da aula da professora Violeta, escrevi tudo muito bem escritinho, pois tinha medo que a minha memória se ocupasse toda com as contas de dividir e com a história de Portugal.

Querem ouvir o que escrevi? Querem ouvir o meu sonho? Querem mesmo? Então, vão ter de fazer uma coisa e têm de prometer. Têm de imaginar! Se o conseguirem fazer vai ser muito mais giro e vão perceber que há flores como nós…

Deixo o resto da história para o regresso às aulas.

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