Opinião

Inteligentes artifícios

28 out 2019 17:37
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Nuno Granja, presidente da ecO - Associação Cultural de Leiria

Contra o céu cinzento, através do ar escurecido pela poeira do inverno nuclear distinguem-se tenuemente silhuetas de pedaços de metal retorcido que, outrora, foram veículos ou estruturas construídas pelo Homem.

O solo, compreende-se agora, está repleto de ossadas humanas. Um número inenarrável de caveiras parece preencher o chão até onde é possível vislumbrar. Subitamente, algo que se assemelha a um pesado pé metálico esmaga a caveira que se encontra em primeiro plano.

Esse pé, como se vem a perceber, pertence a um robot humanóide, cujos olhos, vermelho vivo, sobressaem na penumbra. A cena de abertura do filme O Exterminador Implacável (The Terminator, 1984), poderia resumir o terror que invade a espécie humana quando esta imagina ser ultrapassada por alguma forma de Inteligência Artificial (IA).

É paradoxal este temor que possuímos da IA, num momento em que qualquer um de nós, diariamente, lida com algumas formas de IA ao utilizar um smartphone. O que está latente, parece-me, é a resistência em aceitar que somos uma máquina limitada e facilmente podemos ser ultrapassados, mesmo por uma criação nossa (para os que me leem e têm filhos, será, porventura, mais fácil encaixar esta fatalidade: a das limitações humanas e a certeza de sermos considerados obsoletos pelas nossas criações, mas divago…).

E quanto à capacidade de uma IA de criar? De ter um desempenho artístico? Quando questionado por um fã, no blog The Red Hand Files, acerca da possibilidade de uma IA ser capaz de escrever uma boa música, Nick Cave respondeu algo próximo de: “é perfeitamente concebível que uma IA seja capaz de produzir uma canção capaz de cumprir todos os requisitos para nos fazer sentir o que uma canção nos deve fazer sentir. É concebível, até, que essa canção nos faça ter as mesmas sensações mas de forma mais intensa do que um autor humano seria capaz.

Mas, quando escutamos uma canção escrita por um humano, estamos efetivamente a escutar a limitação humana e a sua capacidade de se transcender. A IA, apesar de todo o seu potencial ilimitado não tem esta capacidade. Como poderia? E é essa a essência da transcendência. Onde está o esplendor da transcendência se o potencial é ilimitado? Uma IA poderia ter a capacidade de escrever uma boa canção, mas não uma grande canção. Falta-lhe o atrevimento.” E uma IA que escreve o argumento de um filme?

Deixo-vos, abaixo, a ligação para um artigo acerca de uma IA responsável pela criação de uma curta-metragem. A história deste feito é caricata, por si só, e vale a pena ver como os atores humanos interpretam o guião. Quanto à IA, que decidiu, ela própria, que se chamaria Benjamin, conquistou-me no momento em que afirma: “I was the scientist of the Holy Ghost”. Ter-se-á transcendido?