Opinião

João B. Serra (2019) Cidade Imaginária, il. Ana Aragão OU cartografar a emoção…

7 dez 2019 12:00

João Bonifácio Serra (n. 1949, Caldas da Rainha) é personalidade reconhecida nos meios académicos, intelectuais, sociais e políticos do nosso tempo, com obra considerável em todos esses domínios e lugar destacado de procuras culturais diversas.

Centro-me apenas no seu papel de trave fundadora da ESAD, no papel agregador e orgânico desempenhado no IPL, com jubilação na primavera passada. Ao ler a ficção Cidade Imaginária, com ilustrações de Ana Aragão (n. 1984) – os [seus] mapas mentais, u-topografias, cartografias emocionais, paisagens invisíveis – apercebo-me de que a primavera do escritor está na geografia dos lugares calcorreados, real ou imaginariamente, e a eternidade da escrita, servida pelo instrumento da memória recriada, a eles pode voltar sempre que novo ponto do mapa/cidade/encontro da moção for evocado.


Esta semana o conjunto/mapa de 42 contos e crónicas – arquipélago, como apelidou Luísa S. Oliveira no excelente prefácio, que abre a edição – grafados com os traços limpos e cuidados habituais de Henrique Cayatte, verá a luz do dia nas Caldas da Rainha e, logo a seguir, em Leiria. Talvez este seja o lugar natalício de João B. Serra: a cartografia das emoções.

O leitor surpreender-se-á com o harmonioso caos representado pelos ricos e tão diferentes hic et nunc: não é a visita ao lugar que se regista, nem o pitoresco de cada momento ou personagem, mas a secreta viagem erótica da lente do desejo que aproxima e o filtro da ternura que distancia (Tutti li miei pensier parlan d’Amore, DANTE dixit).

Por isso os diálogos são uma constante de quase todos os textos, e a suspensão, a incompletude, a pausa marcam o ritmo de uma viagem ocasional ou programada, capaz em todas as circunstâncias de trazer a surpresa e a revelação do mistério transportado por todos.

Nesse sentido, a(s) cidade(s) / o(s) lugar(es) é o protagonista textual emergente, topus onde o caos emocional das personagens se mostra/esconde de uma forma inusitada. Leitora encantada, se realizadora de cinema fosse…, encontro aqui guiões (ou incitamentos a…) para documentários ficcionais ou esboços de dramas/comédias amorosas e quotidianas.

A lista dos lugares – Madrid, Sidney, Paris, Lisboa, Praga, Cidade do México, Ponta Delgada, Istambul, cidade da Normandia, Rio de Janeiro, Roma, Caldas da Rainha, Boston, Florença, Porto, Barcelona, Ribeira Grande, Londres, Maputo, Castelo Branco, Aveiro, Veneza, Ronda, Díli, Atenas, Setúbal, São Paulo, Tallinn, Macau, Guimarães, Leiria, Aquila, Valparaíso, a queirosiana Tormes – serve para o leitor abarcar a complexidade desta cartografia e o ziguezaguear dos impulsos do viajante, com a cronologia imposta apenas pelo novo mapa doravante constituído pela Cidade Imaginária que os cartografou, iconicamente ligados ao fabuloso invisível de Ana Aragão.

Entre as figuras de mulheres, os escritores e cineastas convocados, o leitor acaba transformado em viajante ocasional e fica preso às pormenorizações de uma cartografia que também pode ser a sua.

Toda a escrita é um convite/desafio à partilha: habitar as cidades imaginárias torna-nos seres de exceção porque comuns.

Como se diz no texto (opus cit., p. 170) que fecha/abre o arquipélago:

— Agradeço-te — disse Jacinto — esta espécie de regresso às origens. Aqui, do campo, sente-se melhor a magnificência da cidade, essa "criação augusta" de que falava o meu homónimo.

— Mas só teremos o esplendor da cidade, enquanto garantirmos o esplendor do campo.

O final do livro, Um roteiro de leituras e inspirações, contém a marca do rigoroso e disciplinado académico, que fornece ao investigador o rasto da cartografia científica e racional das emoções artisticamente criadas…


Artigo escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990

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