Editorial

Nós e eles

12 mar 2020 15:16

Generalizar, tomar o todo pela parte, é um grande entrave aos que tentam romper com o que essas culturas mais fechadas ditam

O trabalho que o Jornal de Leiria publica nesta edição sobre jovens de etnia cigana a estudar no ensino superior é mais uma prova da falácia que são as generalizações.

Atribuir determinadas características ou comportamentos a um grupo de pessoas com base na sua etnia, orientação sexual, crença religiosa ou convicção política é, não só descabido, como também uma manifestação de ignorância.

Quando evocamos mulheres, homens, homossexuais, brancos, pretos, ciganos ou árabes, estamos sempre a falar de pessoas, de natureza humana que, como bem sabemos, tem tanto de maravilhosa como de perversa, de benemérita quanto de cruel, de genial como de obtusa.

Algumas pessoas são mais de uma forma, outras de outra, independentemente do revestimento exterior, dos impulsos fisiológicos ou da sua origem.

No entanto, continuamos a olhar muito para o outro, para o que é diferente de nós, baseados em construções que nada têm de científico, tampouco sustentado estatisticamente, não sendo mais do que preconceitos que se vão mantendo de geração em geração, muito por força dos discursos populistas de quem joga com a ignorância e o medo alheios.

Naturalmente que muitos dos preconceitos existentes na sociedade são muitas vezes fomentados pelas próprias comunidades, principalmente aquelas em que os valores e princípios ancestrais das suas culturas continuam a ser impostos por uma maioria, não raras vezes de forma radical.

Nessas, nas quais se inserirão algumas comunidades de etnia cigana, mas também vários grupos religiosos, entre os quais alguns cristãos, os principais inimigos de quem quer fazer uma vida diferente e ser olhado de outra forma, são os próprios pares, não raras vezes os mais preconceituosos.

Mas generalizar, tomar o todo pela parte, é um grande entrave aos que tentam romper com o que essas culturas mais fechadas ditam, acabando estes, muitas vezes, por desistir dos seus sonhos e resignar-se ao que deles se espera dentro da comunidade e à imagem que têm no exterior.

Têm especial importância, portanto, os percursos de pessoas como Ivo e Emanuel, pois contribuem para desconstruir uma imagem pré-concebida fora das suas comunidades, mas também por poderem incentivar outros a seguirem os seus passos e a dizer basta a radicalismos e a comportamentos desfasados do tempo.

Para ajudar nesta reflexão, aconselha-se o livro Factfulness, de Hans Rosling, Anna Rosling Rönnlund e Ola Rosling, uma obra que explica como os nossos instintos deturpam a perspectiva da realidade, nomeadamente a nossa tendência para dividirmos o mundo em dois campos (em geral, nós e eles).

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