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A invenção da Invenção

10 abr 2023 11:45

Rui Gomes é mandatário Europeu de Patentes e Agente Oficial da Propriedade Industrial

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Rui Gomes é mandatário Europeu de Patentes e Agente Oficial da Propriedade Industrial
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Invenção. De acordo com o Dicionário Priberam, trata-se de um nome feminino, e consiste no acto, efeito ou faculdade de inventar.

Inventar, de acordo com o mesmo dicionário, é um verbo transitivo (não podia ser de outra maneira), e consiste em “idear” ou criar no pensamento.

Criar no pensamento é uma definição curta e bem bonita, ainda que não capture completamente o conceito.

Por outro lado, há um segundo significado, figurado, para invenção: mentira, embuste ou, com um nada mais de dignidade, a área da Retórica que ensina a procurar os meios de agradar e persuadir (ainda de acordo com o Priberam).

Ou seja, inventar também pode ser fingir. “Lá estás tu a inventar…!”. Esta segunda definição não é exclusiva do Português: espanhóis, franceses, alemães ou italianos, entre outros, partilham connosco esta segunda acepção.

É algo injusto que os dois sentidos coexistam, tanto para quem inventa como para quem inventa.

Parece que a própria invenção trapaceira se quis fazer passar pela outra. Mas se começamos a compará-las ainda damos mais relevo à segunda e não foi para isso que nos juntámos aqui. Digamos que fica uma palavra de apreço para quem inventa.

Voltando aos dicionários, a Infopédia refere-se a “criar; descobrir; inovar” ou “imaginar para um fim específico”, para além dos segundos significados. A mim, sabe a pouco.

Segundo o Dicionário Larousse, inventar é “descobrir, realizar algo de novo, que ninguém pensou antes, que ninguém antes fez”. Esta insistência em diferentes formas de dizer inventar faz mais jus ao trabalho de quem inventa.

Isto, para falar sobre o esforço de invenção e sobre a recompensa que pode ter. 

O esforço é sempre grande. Como aquela velha história de alguém que contrata um especialista que chega, roda um parafuso, e passa uma factura choruda.

Nesta história não era difícil resolver, difícil era saber como resolver, e isso requeria estudo, preparação.

Nem é o melhor exemplo, nessa história não havia invenção, mas percebe-se a ideia.

Depois de feito, depois de criado; descoberto; inovado, pode parecer fácil.

Por isso é que se dissermos que se tratou de realizar algo de novo, que ninguém pensou antes, que ninguém antes fez, caracterizamos melhor o esforço.

Usou-se na definição de invenção a palavra “descoberta” o que, num sentido lato de descoberta, se percebe. Mas, formalmente, são coisas distintas.

Michael Faraday descobriu através de uma experiência (experiência essa que inventou) como existia interacção entre electricidade e magnetismo, abrindo todo o mundo do electromagnetismo.

Tratou-se de uma descoberta fantástica, assim como outras que protagonizou.

Mas apenas ao alcançar um modelo de gerador que possibilitava medir uma corrente que decorria de se colocar um elemento magnético em movimento na sua proximidade é que inventou uma solução com um potencial revolucionário enorme.

Ainda que, no estado de evolução em que se encontrava e na época em que foi obtida, não possibilitasse uma aplicação prática e directa no dia a dia.

A invenção tem assim uma relação com a prática e a utilidade que vai além da descoberta.

Com a descoberta, alcançou-se o princípio de funcionamento, mas apenas a invenção a reduz à prática. Daí que se fale no “algo” que se inventou, o invento ou invenção. Saem muitas invenções de uma descoberta.

Claro que quanto mais útil for, melhor para o inventor, especialmente se inventar é uma actividade especial que desenvolve pelo gosto ou apetência para o fazer, mas também como elemento crucial para um negócio.

No séc. XV, na República de Veneza, teve-se a ideia (aqui não se inventou) de que inventar seria útil para a sociedade.

Segundo o código que se estabeleceu, reconhecia-se que havia muitas mentes brilhantes a viver em Veneza ou a deslocar-se para lá, e que seria benéfico para o Estado que essas pessoas trouxessem novas soluções para o seu domínio, essa seria uma forma promover o seu progresso.

O inventor notificaria um gabinete da sua invenção e teria até dez anos de exclusivo.

Um infractor teria de lhe pagar um valor pecuniário (cem ducados) e veria os objectos em infracção destruídos.

Procurou-se criar um incentivo para quem inova, por se entender que, apesar de o controlo da inovação ser exclusivo do inventor durante dez anos, a sociedade beneficiaria depois com algo ao qual, caso contrário, não teria acesso. 

A recompensa era assim directa, através da exploração, indirecta, pois o inventor podia conceder uma licença a quem desejasse (provavelmente em troca de pagamentos) e reputacional, uma boa invenção certamente traria prestígio a quem a criava. 

Estes princípios-base permanecem hoje em funcionamento, ainda que com alguns detalhes adicionais. Para que se crie no pensamento e se reduza à prática cada vez mais.