Sociedade
Pela vontade de “conhecer a liberdade”, Sara Silva dá aulas de matemática a crianças em Dili
Natural do Souto da Carpalhosa, esta professora já passou também por São Tomé e Príncipe, estando estabelecida agora em Timor-Leste
Fez o percurso normal de qualquer jovem que pretende seguir a formação académica. Cumpriu mestrado e começou à procura de vagas na área da educação em matemática e ciências. No entanto, queria “ter uma “nova experiência antes de começar a trabalhar como professora”.
Sara Silva, natural do Souto da Carpalhosa, no concelho de Leiria, realizou um projecto de voluntariado durante dois meses, em Itália, e foi esta experiência que a levou a pensar: “se calhar, quero ser professora, mas não tem de ser em Portugal, posso explorar outros países e andar por aí”.
“Tinha a vontade de querer dar aulas, mas não em Portugal, por estar um pouco cansada de Portugal. Estudei em Leiria, sempre vivi com os meus pais e havia uma necessidade de conhecer a liberdade”, destacou esta professora, enquanto recortava algum material de apoio que utilizaria nas suas aulas.
A sua primeira experiência foi em São Tomé e Príncipe, na Escola Portuguesa. “Fiz o ano todo em São Tomé, em 2024/2025, foi incrível”, refere a jovem de 26 anos, professora no 1.º ciclo, ao enaltecer as “relações mesmo maravilhosas” criadas durante este período, nomeadamente com o António e a Maria, colegas que desenvolveram, então, a vontade de ir para Timor-Leste.
Este desejo por continuar a conhecer novas culturas levou-os a candidatar-se às vagas na Escola Portuguesa de Dili e foram escolhidos os três. Mudaram-se de malas e bagagens para a capital, onde vivem juntos e partilham a experiência de leccionar num país estrangeiro.
“Nunca dei aulas em Portugal, não tenho comparação. Mas em Portugal está muito complicado por causa dos miúdos, são cada vez mais mal-educados, é difícil estabelecer ordem. Aqui, os miúdos são especiais. É mesmo aquele tipo de aluno que qualquer professor gostaria de ter. A relação que estou a criar com eles é única”, explica.
A maior diferença, nota, é na língua. “Em Timor, a barreira é muito maior que em São Tomé. Fala-se quase português do Brasil, em São Tomé, mas é bem falado. Aqui, é complicado porque existem duas línguas oficiais, o português e o tétum, que é dominante”, adianta.
Independente há apenas 23 anos, Timor-Leste é um país onde o português está “em crescimento”, afirma Sara Silva, ao mencionar que os alunos “percebem a língua, mas têm alguma dificuldade em verbalizar”.
Vinda de São Tomé e Príncipe, “um país muito pobre e parado no tempo”, achou que tinha chegado ao “paraíso” quando aterrou em Dili. “Não nos falta nada. Aqui, podemos ir a um ginásio como teríamos em Portugal, por exemplo. A nível de comida, também não falta nada, é uma cidade que está a crescer. Quando andamos pelos municípios, percebemos que a pobreza é uma realidade”.
O espírito de aventura ainda a caracteriza e, habituada à natureza de Souto da Carpalhosa, comprou uma bicicleta para explorar mais a região.
As saudades de casa “são muitas”. Sara Silva mudou “do oito para o oitenta” a aproveita, sempre que pode, para ir a casa. São cerca de dois dias de viagem, que valem a pena quando pretende matar saudades “das coisas simples de Portugal”.
O futuro, para esta professora, “é uma incógnita”. Apesar de gostar de leccionar na escola onde está, continua com vontade de conhecer outros países – Moçambique, Angola, Cabo Verde –, mas trabalhar em Portugal não está fora da equação.