DEPRESSÃO KRISTIN

Vidas em suspenso. Viver num pavilhão enquanto se espera para poder voltar “à casinha”

12 fev 2026 08:00

Duas semanas após o temporal, há ainda cerca de 270 desalojados na região, a maioria abrigada em centros de emergência criados pelas autarquias. Gratos por estarem “vivos”, esperam pelo tão desejado regresso a casa em segurança

Maria Anabela Silva

Manuel faz girar a cadeira-de-rodas sob o piso do pavilhão gimnodesportivo do Souto da Carpalhosa, antes habituado a jogos de basquetebol e agora transformado em centro de acolhimento de emergência, com colchões espalhados pelo chão. Na segunda-feira à tarde, quase duas semanas depois do temporal, o local dava abrigo a duas dezenas de pessoas, cujas casas ficaram sem tecto ou em risco de ruir.

“Pelo menos, aqui não chove”, diz, em tom conformado, Manuel Alves, ainda com as “horas de aflição” vividas noite da tempestade bem presentes na memória. “Queremos esquecer, mas não conseguimos”, partilha Maria Isabel, de 75 anos, que está no centro desde o dia 1 de Fevereiro, ela e a restante família, “oito pessoas” no total. “Três filhos, duas noras, a minha neta [de 16 anos] e um rapazito que vive connosco”, enumera contando que a casa ficou com o telhado “muito estragado”.

“A placa rasgou e deixa passar a água. Não podia usar a cozinha, nem acender a lareira e chovia- -me na cama”, descreve Maria, que dá “graças a Deus” por estar viva, ela e os seus. A sua convicção é que se fosse durante o dia, tinha morrido “muita gente”. Agora, só pensa em voltar ao seu “cantinho”, mas sabe que é preciso “tempo” para que as obras de reparação possam ser executadas. “Temos sido bem tratados aqui, mas falta-nos a nossa casinha”, diz, resignada, sentada em volta de uma mesa, sobre a qual está pousado o papel com o resultado do jogo de cartas da noite anterior.

“Precisamos de passar o tempo de alguma maneira”, diz Paulo Alegria - “alegria é só no nome, porque estou muito triste com tudo o que aconteceu” –, que tem procurado “manter a moral” e “activar” as pessoas à sua volta. Conta que na manhã daquele dia fizeram salada de fruta

Agora, ocupa-se e preparar um paté de atum para o lanche. “Também já ajudei com os caixotes da casa-de-banho. Sentir-me útil, ajuda-me”, confessa Paulo, que chegou “há três dias” ao pavilhão, por a casa onde vivia, na Coucinheira, Amor, já não ter condições de habitabilidade, primeiro, devido aos danos provocados pelo vento e depois por causa de um incêndio que provocou ao tentar aquecer água.“A Protecção Civil trouxe- me para aqui. Agora, só quero que os pés desinchem para poder voltar para a rua e ir ajudar quem precisa. Temos de andar para a frente.”

“Só queria que aquilo passasse”

No caso de Manuel Alves os planos são outros: os de ficar até que a sua casa seja arranjada. “Mesmo que quisesse ajudar, não posso. Estou há 38 anos nesta cadeira-de-rodas”, conta o homem, de 61 anos, que fala da noite do temporal como “uma noite para esquecer”. Como se fosse possível.

“Foi horrível. Abriu-se a janela da sala. Pensei que ia tudo abaixo. Consegui levantar-me e fechá-la. Depois, voltei para a cama. Só queria que aquilo passasse”. Quando o tempo amainou, voltou a levantar-se e deparou-se com os estragos. A chaminé caiu e “partiu” parte do telhado. A outra, “o vento arrancou- -a”. Acabou por ser retirado de casa e encaminhado para o pavilhão do Souto da Carpalhosa. “Vivo aqui perto e nunca tinha entrado. Agora, passo aqui os meus dias, à espera de dias melhores.”

Esta é uma das seis estruturas de acolhimento disponibilizadas Município de Leiria para acolher pessoas desalojadas pela depressão Kristin e pelas inundações. No domingo, o número subiu para 82, com a retirada, “por precaução”, dos moradores de um prédio localizado na Rua de São Miguel, perto do Centro Emprego, onde, em tempos, houve uma derrocada.

“A Protecção Civil recomendou a saída dos residentes, para fazer uma vistoria e avaliar as condições de estabilidade do edifício”, explicou a vereadora Ana Valentim, adiantando que 14 moradores foram encaminhados para as estruturas de acolhimento e as restantes ficaram com familiares.

Essas 82 pessoas estavam, na segunda-feira, distribuídas pelos pavilhões de Souto da Carpalhosa (21) e de Colmeias (12) e 49 pelos espaços de acolhimento criados em Leiria: uma casa que o município tem na Barreira, na sede da Junta de Freguesia de Leiria e no salão paroquial da Cruz da Areia. A colectividade da Touria, nos Pousos, está preparada com 100 camas, mas, até ao momento, ainda não foi usada, avança Ana Valentim, frisando que essas pessoas têm acompanhamento “a nível social e psicológico”.

Segundo a vereadora, o objectivo é que alguns desalojados possam transitar para as casas móveis que o município está a instalar até conseguirem a reabilitação das suas habitações. No total, serão disponibilizadas 30 habitações modelares, a distribuir pelos Marrazes (3), Boa Vista (1), Pousos (4), Colmeias (7), Maceira (6) e Souto da Carpalhosa.

Na segunda-feira, já tinha sido iniciada a instalação e a expectativa da autarquia é que o processo fique concluído “o mais depressa possível”, de forma a garantir “mais conforto e autonomia” a quem está, há vários dias, a viver nos centros acolhimento de emergência.

“O que queremos é que as pessoas possam voltar, o quanto antes, às suas casas. Mas, ainda há muito telhado a reparar e a chuva não tem ajudado. Não devemos correr riscos desnecessários, para não acrescentarmos tragédia à tragédia”, afirma Sandro Ferreira, presidente da Junta de Souto da Carpalhosa.

O autarca conta que as cerca de duas dezenas de pessoas acolhidas no pavilhão são “uma pequena parte” dos residentes na freguesia cujas habitações não têm condições de habitabilidade. “Há perto de 100 famílias a viver fora de suas casas”, precisa, explicando que o centro instalado no pavilhão é também um ponto de distribuição de ajuda à população e funciona com apoio de voluntários, como Isabel Fernandes, de Sintra, que está há mais de uma semana no local (ver caixa), e elementos da Unidade Local de Protecção Civil.

Cerca de 270 pessoas em alojamento provisório

Na terça-feira, quase duas semanas depois da depressão Kristin, que deixou um rasto de destruição na região, permaneciam em centros de acolhimento de emergência ou outras respostas similares criadas pelas autarquias cerca de 270 pessoas, cujas casas ficaram sem condições de habitabilidade. Esse é um número que peca por defeito já que, em alguns concelhos, não estão contabilizadas pessoas acolhidas por familiares e/ou amigos.

Em Leiria, a actualização feita ao JORNAL DE LEIRIA pela vereadora Ana Valentim, na segunda-feira, indicava a existência de 82 deslocados (ver texto principal). Já em Ourém, o município está a acompanhar 207 situações, das quais houve necessidade de realojar cerca de 80 pessoas. Destas, 31 estão no Centro Francisco Jacinta Marto em Fátima e quatro em apartamentos emergência da câmara. Havia ainda “cerca de 45 deslocados”, acolhidos em casa de amigos ou familiares.

Na Marinha Grande, as duas zonas de concentração e apoio à população criadas pelo município – uma no Sport Operário Marinhense e outra na Sociedade de Beneficência e Recreio 1º de Janeiro, instalada numa tenda disponibilizada pelas Forças Armadas, acolheram um total de 45 pessoas. Destas, 36 ficaram, até segunda feira no SOP, tendo sido depois encaminhadas para um outro espaço “concertado entre a câmara e a comunidade”.

No concelho de Alvaiázere, no qual as autoridades estimam que 95% das casas e empresas tenham sido afectadas, o apoio aos desalojados está a ser prestado no pavilhão desportivo da vila, onde, no início desta semana, permaneciam 25 pessoas. Antes, o local já tinha acolhido perto de uma centena de pessoas.

Em Pombal, desde o início da tempestade foram registados 90 desalojados, dos quais 60 já regressaram as suas casas. Na segunda-feira, havia ainda 30 desalojados, todos acolhidos, na sua maioria, por familiares e amigos, sendo que zona de acolhimento provisório criada pelo município na Escola Secundária de Pombal, estava vazia naquela data.

Em Figueiró dos Vinhos, o município realojaou seis habitantes. “Não temos dados sobre quem está em casa de familiares”, admitiu o presidente da Câmara, Carlos Lopes. 

Isabel veio de Sintra há mais de uma semana: “Vou ficar até que precisem de mim”
 
Formada em tradução, com “mais de 40 anos” ligada ao ciclismo, - foi árbitra e organizadora de provas – Isabel Fernandes, residente em Sintra, está, há mais de uma semana, a fazer voluntariado no centro de emergência instalado no pavilhão do Souto da Carpalhosa, no concelho de Leiria. “Não podia ficar indiferente ao que se abateu sobre esta região”, afirma. Conta que começou por contactar a Protecção Civil a disponibilizar-se para ajudar e que a encaminharam para a organização do voluntariado. “Pediram-me que viesse para aqui e vim. Estou cá desde o dia 2 de Fevereiro. Ontem fui a casa, para votar. Mais do que nunca, era importante votar. Mas regressei hoje [na segunda-feira, dia 9] e vou ficar até que precisem de mim”, partilha Isabel, que actualmente se encontra desempregada. “Tenho disponibilidade. Há outras pessoas que gostavam de ajudar, mas que tiveram de regressar aos seus trabalhos”, reconhece a mulher, que foi colocada na zona do pavilhão que acolhe as pessoas desalojadas. Tem sido, diz, “uma experiência marcante”. “Lidar com quem viveu aquele momento, que viu as suas casas danificadas, com água dentro, e onde não podem estar, sem saber o que vai acontecer ou quando podem regressar a casa…. Toca muito”, confessa. Há ainda as histórias de vida que vão partilhando consigo. “As pessoas precisam muito de desabafar. Num momento de fragilidade como este, há muita coisa que vem à cabeça. Tenho ouvido aqui histórias duras. É uma experiência de vida.”