Opinião

O trânsito em Leiria

18 out 2026 21:00

Não há sistema viário urbano que possa suportar tantas e tão longas deslocações de carro, nem mesmo se Leiria fosse um autódromo de vias rápidas, rotundas e estacionamentos

O centro de Leiria, e os centros das freguesias, foram construídos com malhas urbanas densas para que se pudesse andar a pé entre as habitações, as lojas, as oficinas, os escritórios, os cafés, os teatros, os templos, etc. A partir da década de 1970, a maioria das pessoas começou a ter carro particular e a cidade desenvolveu-se na periferia.

As distâncias entre a habitação, o comércio e os serviços aumentaram e as deslocações começaram a ser feitas de carro. A vida de Leiria passou a fervilhar na periferia, onde ao longo das vias foram surgindo shoppings, hipermercados, escritórios, escolas, ginásios e loteamentos habitacionais, cada um com o seu grande estacionamento anexo.

O centro passou a “centro histórico”, um casario velho desadequado à vida moderna, com edifícios devolutos, sem estacionamento, sem novos habitantes e sem vida própria que vai servindo de postal turístico ou sítio de eventos ao fim de semana.

Actualmente, a maioria das pessoas em Leiria precisa de se deslocar de carro (80%) e como a cidade continua em franco crescimento (vai em 130.000 habitantes), o trânsito tenderá a ser cada vez mais lento e problemático.

Não há sistema viário urbano que possa suportar tantas e tão longas deslocações de carro, nem mesmo se Leiria fosse um autódromo de vias rápidas, rotundas e estacionamentos.

Restringir o carro e obrigar as pessoas a fazerem a pé distâncias que foram construídas para o carro seria matar a circulação da cidade. Implementar um sistema de transportes públicos de excelência pode contribuir para reduzir a quantidade de carros a circular.

No entanto, numa cidade de baixa densidade e dispersa como Leiria, os transportes públicos não são eficazes. Para resolver o problema do trânsito, Leiria terá que desenvolver os seus potenciais centros urbanos como sejam o Centro Histórico, a Guimarota, a Gândara, os Marrazes, os Pousos, os Parceiros ou o Telheiro, entre outros.

Assim, os Leirienses, actuais e futuros, que preferirem um estilo de vida citadino e andar a pé entre a escola, o trabalho, as lojas, o café, etc., poderão escolher viver num desses centros e dispensar o carro na maioria das suas deslocações, reduzindo-se assim a carga do sistema viário.

Quem escolher viver na periferia continuará a ter que fazer a maioria das suas deslocações de carro, mas passará a fazê-lo com um trânsito funcional.