Opinião

Reconstruir Leiria: primeiro o telhado, depois o futuro

28 fev 2026 10:21

Quando uma fábrica para, não é apenas o edifício que está em risco, é a reputação de décadas

A tempestade Kristin não foi apenas meteorologia, ela foi uma radiografia à nossa resiliência. Em poucas horas, o vento arrancou telhados, parou fábricas, fragilizou comunicações, mas sobretudo levou vidas, abrigos e sustento. A região enfrenta agora um desafio duplo, como estancar a hemorragia da emergência e, simultaneamente, desenhar o futuro.

No imediato, não há espaço para romantismo. Primeiro vêm as pessoas – casas seguras, escolas a funcionar, energia estável e empresas a retomar a produção. As medidas anunciadas — apoios até 5.000€ pagos em três dias e decisões rápidas para valores até 10.000€ por habitação — são o penso rápido necessário. A moratória de 90 dias, em vigor desde 6 de fevereiro, dá o fôlego que famílias e empresas exigem. Contudo, sejamos frontais, o pacote de 2,5 mil milhões de euros e as linhas do Banco de Fomento são interessantes, mas curtos.

A linha de tesouraria, por exemplo, esgotou-se à velocidade do vento. Uma moratória ou uma linha de investimento que apenas cobre o que os seguros não pagam (muitas vezes calculados sobre valores contabilísticos obsoletos e não sobre o custo real de reposição) não é capital novo, é apenas tempo — e, por vezes, tempo embrulhado em burocracia. Numa região exportadora como a nossa, o tempo mede-se em prazos de entrega.

Quando uma fábrica para, não é apenas o edifício que está em risco, é a reputação de décadas. Se a empresa falha, os clientes internacionais procuram alternativa e não voltam. A reconstrução física tem de andar de mãos dadas com a reconstrução financeira. Mal estabilizem os telhados, temos de virar a página para o médio prazo (18–60 meses). Reconstruir “igual” é o caminho mais curto para a próxima vulnerabilidade — seja ela climática, tecnológica ou geopolítica.

Num momento em que o setor automóvel europeu já mostrava sinais de declínio, urge acelerar a diversificação. Leiria tem a competência rara de saber industrializar com rigor. Devemos canalizar esse saber para setores de maior valor: Defesa e Dual-use, Robótica, Aeronáutica, Saúde e Materiais Avançados.

Para contornar a rigidez do Estado, proponho quatro “atalhos” de eficiência. Co-investimento pari passu, onde o Estado entra se um privado entrar, validando a avaliação do mercado e ganhando agilidade; Notas convertíveis - contratos digitais e simplificados para o capital sair em dias; Gestão da “carteira Kristin” por gestoras privadas, com métricas de performance e prestação de contas rigorosa; e Cláusula de recompra, para que o apoio público seja um porto de abrigo e não uma “nacionalização branca”.

Leiria pode ser o piloto nacional deste modelo. Temos o ecossistema — Startup Leiria, NERLEI e Politécnico de Leiria, Cefamol, Apip, Aricop etc. — para validar danos e elegibilidade, permitindo que o capital chegue antes da insolvência. O vento arrancou telhados, mas não nos pode arrancar a ambição. À região que se levantou e aos autarcas que estiveram no terreno, o nosso obrigado. Agora, depois do telhado, vem o futuro.

Texto escrito segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico de 1990