Sociedade

Comunidade imigrante do norte do distrito mantém as suas tradições de Natal

24 dez 2023 14:00

Reino Unido, dos Países Baixos, da Suécia, Alemanha e até dos Estados Unidos

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Wellington vegano, nabos e cenouras assados no forno
Fotografia: DR
Jacinto Silva Duro

Portugal, uma nação de emigrantes, desde a Expansão marítima do século XV, tornou-se, nos últimos anos, num país procurado por muitos imigrantes em busca de uma vida melhor.

Na verdade, já antes da mais recente vaga de imigração, muitos estrangeiros elegiam o “país à beira-mar plantado” como lar.

Vieram do Reino Unido, dos Países Baixos, da Suécia, Alemanha e até dos Estados Unidos.

É esse o caso de Sarah Beach e de David Allen que se fixaram no concelho de Ansião há dez anos.

Procuraram um local com gente amigável, uma temperatura agradável, natureza e muito sossego, após uma vida a calcorrear as quatro partidas do mundo.

Originários do Reino Unido, viveram parte das suas vidas na Austrália e percorreram a Europa numa caravana, até que compraram uma casa nos arredores da vila de Ansião.

Consigo, trouxeram o que tinham de mais precioso: as recordações, uma cadela, as fotografias e as tradições.

Falando nelas, explicam que, na Grã-Bretanha, a Consoada não é o momento alto do Natal.

Esse está reservado para o dia da festa da luz e do nascimento de Cristo, no 25 de Dezembro.

E a comunidade britânica importou a tradição. “No Reino Unido, as pessoas acordam tarde, comem um pequeno-almoço tardio, com salmão, ovos mexidos e, por vezes, champanhe ou mimosas”, explica Sarah.

Antes, porém, no lar forrado a pedra calcária e persianas e portas de madeira clara de David e de Sarah, é tempo de abrir as prendas que o Pai Natal deixou na meia pendurada na lareira… ou noutro local da casa, à falta do tradicional elemento arquitectónico.

É tempo de ver quem foi bem-comportado e recompensado ou quem foi mal e recebeu um pedaço de carvão… a tradição é semelhante à portuguesa.

Graças ao Brexit, não conseguimos arranjar muitos dos ingredientes tradicionais, temos de fazer tudo do zero
Sarah Beach

Em Ansião, tentam recriar algumas das tradições, mas deixaram cair outras.

Pelas 14 ou 15 horas, quando no Reino Unido ainda se escuta a mensagem de Natal do rei Carlos III para toda a Commonwealth, David, que é designer gráfico, e Sarah, que é tradutora, iniciam o almoço de Natal.

“Na Grã-Bretanha, é uma refeição grande, com a família, com convívio, presentes, muita bebida e comida. O prato principal é o peru, que se tornou popular nos anos 50, antes, era o ganso”, conta Sarah.

A acompanhar, há batatas e nabos assados no forno, com gordura de pato, pigs in blankets (salsichas enroladas em bacon), grossas fatias de fiambre assado e couves de bruxelas, também assadas.

Tudo acompanhado por vários molhos, como o de pão, confeccionado à base de pão (claro!), especiarias, leite e cebola, e o molho de arandos.

Para sobremesa, há “mince pie”, uma tarte com recheio à base de frutas secas, brandy e muito açúcar.

E Natal, não pode ser Natal sem Pudim de Natal quente, com frutos secos e… álcool.

Segue-se um resto de tarde, a ver um filme clássico de Natal, pelo menos, para quem ainda está acordado.

“Há quem aproveite para uns jogos em família ou um passeio, para ajudar à digestão. No final do dia, o jantar faz-se com os restos ou com uma refeição leve”, diz Sarah, que, admite, não segue todos os hábitos britânicos de Natal, até porque o casal é vegano.

“Confeccionar pigs in blankets sem carne é um desafio. E, graças ao Brexit, não conseguimos arranjar muitos dos ingredientes tradicionais, por isso, temos de fazer tudo do zero.”

Há mesmo quem, no início de Dezembro vá, propositadamente, visitar a família ao Reino Unido e traga, na mala, no regresso, muitos condimentos e especialidades, para si e para os amigos.

Em alternativa, há uma mercearia no Avelar, que tem quase tudo o que um britânico precisa para um “very British Christmas”.

“Temos sempre uma ‘árvore de Natal verdadeira’. O David poda o nosso loureiro e usamos os ramos enfeitados. Alguns dos enfeites eram dos meus natais em casa dos meus pais e trago-os comigo desde sempre”, conta a britânica.

A melhor parte, para quem vive no Reino Unido é que, o dia 26 é feriado, o célebre Boxing Day e, como tal, há tempo para jiboiar pela casa, de cinto aberto, antes de se voltar ao trabalho, nos dias antes do Ano Novo.

Infelizmente, David e Sarah habitam em Ansião.

Alex e Julia Khachatryan vivem no fundo da rua dos britânicos. Nasceram em Moscovo, na antiga URSS, e viveram três décadas nos Estados Unidos, antes de o destino os levar até ao norte do distrito de Leiria.

Na família de ambos, há raízes arménias, judaicas e cristãs.

“Apesar disso, na nossa família não éramos muito religiosos. Na URSS, não havia religiões, apenas o Estado e os feriados estatais. Contudo, as tradições vêm com as famílias e, em crianças, festejávamos a Páscoa, quando muitas pessoas visitavam os cemitérios”, conta Alex, que foi responsável, durante anos, por uma ONG que estimulava o ensino da Matemática, a crianças, através da tecnologia.

A quadra actual acabou por ser mais marcante pelo Ano Novo, por ser um feriado apolítico, laico e não controverso, “com muita comida, festas e noitadas”.

“Agora, marcamos o dia de Natal com um bom jantar e um bom vinho. Também não celebramos o Hanukkah [importante festa judaica que coincide com o Natal e é conhecido como o Festival das Luzes], mas temos os nossos próprios valores”, resume.