Opinião

A Black Box

23 mai 2024 16:25

Leiria tem um novíssimo e invejável espaço cultural. Aproveitá-lo é criar para ele, mas, acima de tudo, é ser o seu público

Quando, em conversa com alguém que acabo de conhecer, ou no encontro com alguma alma com quem já não me cruzo há muito, digo que vivo em Leiria, é cada vez mais frequente falarem-me imediatamente na cultura que por cá acontece. Fazem-me perguntas curiosas, um pouco intrigados por saberem que não é uma cidade grande, e por saberem, ou apenas terem a percepção, de que não se trata da existência de grandes eventos externos, mas sim da chamada “prata da casa”, no que o termo tem de melhor de mais interessante, e de único.

Falam-me algumas vezes do Música na Cidade sem saberem que, infelizmente, já não acontece, e também d’ A Porta, mas todos sabem que muito mais coisas por cá acontecem, num número, numa frequência e com uma qualidade dignas de admiração. Eu confirmo, é claro, e vou explicando e respondendo com o orgulho de quem volta e meia tem oportunidade de poder ser parte dessa agitação cultural.

A partir de agora terei mais para contar, certamente. Isto porque a novíssima Black Box de Leiria irá entrar em cena já no dia 22, num Dia da Cidade que ficará marcado pela possibilidade de passarmos a ter um fantástico local para performance, e uma grande oportunidade para cruzamento de artes cénicas numa lógica de experimentação absolutamente fundamental para a criação.

Para quem não sabe, uma Black Box (no caso das artes cénicas, já que também as há na informática e na aviação), é uma pequena sala de espectáculos concebida para apresentação de produções artísticas experimentais e com poucos intervenientes. Em 1965, Robert Rauschenberg, um multifacetado pintor, escultor, fotógrafo, figurinista, cenógrafo e performer, precursor da arte pop, criou o conceito de um espaço também multifacetado e preparado para um sem número de possibilidades do ponto de vista de espaço, som e iluminação; um espaço aberto, de pé direito alto e totalmente negro que correspondesse às suas necessidades criativas. Eis a Black Box.

A nossa, com 120 lugares em bancada retráctil, um som topo de gama, écran de projeção, excelente iluminação, belíssimos camarins e ainda uma extraordinária sala de ensaios polivalente, onde também acontecerão performances e pequenos espectáculos, tem a assinatura do atelier do arquitecto Carrilho da Graça, o que lhe garantiu a beleza, e a eficácia dos espaços.

É um lugar que convida à criação, ao cruzamento de artistas, e ao contacto muito próximo com a comunidade, num ambiente de experimentação e de fruição que apela à curiosidade, à troca de ideias, à descoberta e à liberdade de ser e de estar.

Na noite a seguir à sua abertura terei o enorme gosto e orgulho de fazer parte da programação, apresentando uma performance, acreditando que seja o primeiro de outros projectos, a solo ou, desejavelmente, com outros parceiros na criação.

Leiria tem um novíssimo e invejável espaço cultural. Aproveitá-lo é criar para ele, mas, acima de tudo, é ser o seu público; é ser comunidade mais próxima do processo criativo e mais próxima de poder fazer também, fazendo parte, tal como é meu desejo para o dia 23.