Opinião

A grande crise - I

2 nov 2026 21:00

Esse crash da Bolsa desencadeará, num instante, milhares de falências e, por via disso, lançará milhões de pessoas no desemprego e miséria.

1– Nas vésperas do dia 24 de outubro de 1929, também chamado Quinta-Feira Negra, o presidente Hoover fazia os mais rasgados elogios ao liberalismo e ao sistema liberal. Defendia as virtudes do “menos Estado possível”, numa economia que se autorregulava pela “sacrossanta” lei da oferta e da procura.

Esse crash da Bolsa desencadeará, num instante, milhares de falências e, por via disso, lançará milhões de pessoas no desemprego e miséria.

Meses depois grande parte do mundo estará caído numa depressão profunda, com desemprego generalizado, numa crise que durará mais de uma década. O desespero.

2 – Os estudantes de Economia devem ler obrigatoriamente As vinhas da ira de John Steinbeck e ver depois o filme de John Ford, com o jovem Henry Fonda num dos melhores papéis da sua vida. Porque fala desses tempos e das suas consequências.

De como uma família de agricultores, tendo sido espoliada das suas terras para os bancos credores, erra pelo território americano à procura de trabalho. A sua esperança são as grandes laranjais da Califórnia onde parece haver trabalho bem pago. A realidade é bem diferente.

Esses campos agrícolas são autênticos campos de servidão, porque havendo tanta abundância de mão de obra os ordenados são depreciados até ao limite da sobrevivência. É a exploração humana. 

Os primeiros campos de acolhimento, criados por iniciativa das autoridades estaduais para integrar estas famílias de migrantes e dar-lhes uma casa e um ordenado digno, são atacados pelos capangas das companhias agrícolas e alguns dos seus responsáveis assassinados.

3 – E os aspirantes a economistas devem obrigatoriamente conhecer as medidas que o governo federal de Roosevelt tomou para combater a grande crise.

O Estado torna-se regulador – dos preços, dos stocks, das condições de trabalho, para evitar a todo o custo a miséria e exploração generalizadas. E foi o Estado, através do governo de Roosevelt, que incentivou a união dos trabalhadores e o fortalecimento de sindicatos, foi o Estado que definiu o salário mínimo, o horário semanal de trabalho, as férias obrigatórias, a segurança social, os cuidados de saúde.

Foi o Estado que investiu milhões e milhões de dólares em obras públicas – estradas, barragens, escolas, centros culturais, serviços públicos - empregando milhões de pessoas até aí desempregadas.

Foi o Estado que promoveu a construção de habitação social numa escala nunca antes vista.

Nos EUA dos anos 30, o combate à crise económica e social foi oportunidade para fortalecer a Democracia, as instituições, a cultura, os direitos e as liberdades.

Noutros países, como a Alemanha, a crise fortalecerá um governo autoritário, repressivo e adepto da guerra e do extermínio. Mas essa é outra história.