Opinião

Democracia e “holiganismo”

8 mai 2026 21:30

[A Democracia] também está a sofrer de fenómeno que começa a ser preocupante: o da “holiganização” da política e, especificamente, das forças políticas

Em Democracia, quem se candidata a cargos de governação deve sempre corresponder a essa suprema responsabilidade cívica de trabalhar para o bem comum. E este é o ponto fulcral da Democracia. Acredito que em Democracia sempre se sai vitorioso quando a dignificamos, quando assumimos, em primeiro lugar, que os opositores políticos nunca são inimigos a combater, apenas adversários a respeitar. A Democracia está a enfraquecer? Talvez. Convencemo-nos que a Democracia vive por ela e esquecemo-nos que é necessário alimentá-la de boas ações, mais do que bonitas palavras. E, sim, que é necessário evitar a corrupção e o clientelismo. (E como é confrangedor verificar o alheamento dos milhares de burocratas, que se passeiam nos gabinetes ministeriais ou nos institutos públicos, das necessidades concretas das populações!).

A Democracia tem esse outro ponto fraco: a de ter muita dificuldade em lidar com a mentira e com a demagogia. Porque também está a sofrer de fenómeno que começa a ser preocupante: o da “holiganização” da política e, especificamente, das forças políticas. O holiganismo vive da identificação cega, do confronto, tem como perspetiva derrotar e esmagar o adversário. Não pensa, não procura saber! É inculto e primário. Mente descaradamente.

E a prova de que a democracia está a enfraquecer é a forma como nos destratamos na vivência política. Não nos limitamos a “combater” com argumentos; queremos aniquilar o “opositor”, fazendo “bullying” e, se possível, atingi-lo na sua dignidade. Porque começa a ser muito preocupante o nível de “violência” verbal, da mentira descarada e o da ameaça, para o qual Pacheco Pereira tão frequentemente tem alertado.

Por isso mesmo é que muito boas pessoas, que sabemos serem competentes, recusam envolver-se na política e, muito menos, ter cargos políticos. E muitos outros, se os tiveram, recusam voltar a tê-los. Pepe Mujica, uruguaio, um humanista, opositor político, que foi preso e torturado na ditadura, depois Senador e Presidente da República do Uruguai, dizia: “A política não deveria ser uma profissão da qual se ganha a vida; deveria ser uma paixão pela qual se vive. Uma paixão criativa, que não garante que erros não serão cometidos. As nossas limitações humanas obrigam-nos a cometer erros. Mas devemos abordar a política como um artista faz ao criar uma obra: com a melhor honestidade que consiga e dando tudo de si”. Mário Soares, Sá Carneiro ou Freitas do Amaral, se fossem vivos, seguramente subscreveriam estas palavras.