Opinião

Cada um é muita gente: Balada do chão

30 ago 2025 16:31

E esta mulher lá anda, empurrando o carrinho como se empurrasse o futuro. Limpa passeios e calçadas, tristezas e gargalhadas que moram juntinho ao muro

A minha rua não tem quase ninguém, a não ser toda a gente que a minha rua tem. Um só caminho, estreitinho, um ou outro vizinho que ali faz o dia. Os carros só entram de frente, um ou outro adolescente, pequenas porções de gente, e o meu gato que mia. Além de tudo isto, que é poucochinho embora tanto, passa gente e, quando passa, os passos imprime e traça no dia daquele recanto.

E, lá de vez em quando, talvez uma vez por mês, passa uma senhora limpando, de pá e vassoura junto aos pés. Veste verde, tem um boné e leva um carrinho, devagarinho, até ao finzinho da rua. Limpa juntinho à minha casa, apanha o lixo que está no chão, e lá vai de casa em casa, assim de grão na asa à procura de um coração - a minha imaginação.

No carrinho, de duas rodas, um contentor, uma caixa de metal e um sítio onde pôr a garrafa de água e mais qualquer coisa que dê jeito trazer - talvez a carteira e uma ou outra vontade de deixar de ser o que ela é.

Apesar de não haver nenhuma vergonha em ter a profissão que tem, talvez ela não tenha sonhado que o mundo organizado fosse este o mundo de alguém. Mas é o dela, desta mulher que limpa e varre - haja alguém que a agarre, que consiga fazer o que ela faz. Parece não ter ciência, mas há cultura na decência de limpar o que deixamos para trás.

Há, até, uma certa beleza nesta coisa da limpeza que deveríamos dizer: limpar é renovar a vida, dar ao fim outra saída, numa palavra, é viver. E esta mulher lá anda, empurrando o carrinho como se empurrasse o futuro. Limpa passeios e calçadas, tristezas e gargalhadas que moram juntinho ao muro.

E ela mora ali também. Não só na minha rua, mas em todas as ruas da cidade. São elas a sua casa, o seu lugar. E diria que a sua vontade é por elas continuar. Se não fosse ela, a minha rua não seria assim. Teria gente, os tais carros a entrar de frente, mas estaria, como seria, à beirinha do fim. Se não fosse ela, nem eu por lá andava, nem o meu gato miava, nem teria o que escrever.

Ela empurra o seu carrinho e, assim devagarinho, lá nos ajuda a viver.