Opinião

Criadores de risco…

8 mai 2026 11:54

Às vezes, é preciso parar, olhar e contornar as linhas angulares, altivas e presunçosas que aparecem nas nossas vidas

Há muito tempo, num pequeno lugarejo, havia uma menina que alimentava folhas de papel, paredes, muros, bancos e tudo o que encontrava, com riscos e riscos e mais riscos. Riscos longilíneos, riscos estreitos e grossos, tísicos e gorduchos. Riscos imensos, que se alinhavam, que se desalinhavam, que se aprumavam, que se exibiam direitos, altivos e arrogantes, retilíneos, verticais e horizontais. Eram riscos lisos e planos que, teimosamente, se negavam a dobrar ou a cruzar. Eram riscos que se mantinham firmes, nobres e majestosos, objetivos, seguros, mas solitários e desamparados.

Aqueles riscos traçados, quer deitados, quer em pé, e que tanto subiam como desciam, qualquer que fosse a inclinação ou a direção para a qual apontassem, reinavam, por ali, também, nas ruas, nos caminhos e em estradas. O lugarejo era um emaranhado de linhas que tanto avançavam de cima para baixo, como de baixo para cima. Umas inclinavam-se à mesma distância, outras a distâncias diferentes, outras rasavam as margens e desapareciam no infinito, no entanto, nunca se cruzavam! A menina era incompreendida, como são incompreendidas todas as pessoas estranhas. Não transmitia uma palavra. Nunca, ninguém, a ouvira falar.

A menina não emitia um único som, por isso, assim que alguns rabiscos, eventualmente, pareciam conter alguma explicação para o seu problema, logo se mandavam vir especialistas, sábios e peritos, mas, nunca, ninguém conseguia chegar a conclusões plausíveis. Um dia, a menina, reconhecendo que jamais cessaria de desenhar linhas e que, traçando perfeitos labirintos, fazia com que muitos dos habitantes se perdessem na frondosa floresta que ladeava a aldeia, rumou dali para fora, esperando encontrar um lugar onde compreendessem, e perdoassem, a sua compulsividade para desenhar riscos autoritários, mas íntegros. E lá ia ela, caminhando insegura, pensando em como se tinha tornado tão indesejada, tão problemática. E lá ia ela em busca de um mundo no qual, sem que perdesse a sua identidade, se encaixasse.

Ia tão imbuída em pensamentos enleados que nem se apercebeu da linha reta e constante que ia deixando no caminho de terra que palmilhava. De repente, Zás! um menino, que descia uma resvaladiça encosta, fugindo do que parecia uma multidão em fúria, atingiu a linha que a menina formara no chão e, exatamente no ponto em que a cruzou, num encaixe de mãos perfeito, se escoraram um ao outro. A verdade é que também ele procurava um lugar no mundo para se encaixar, pois sofria do mesmo mal que a menina. Então, dali em diante, não mais se largaram e, juntos, construíram o nosso, e o seu, admirável mundo novo, aquele em que vivemos e em que esta união de linhas nos passa despercebida, porque, às vezes, é preciso parar, olhar e contornar as linhas angulares, altivas e presunçosas que aparecem nas nossas vidas.

E se, nas perpendiculares que se nos traçam, fizéssemos como estes dois criadores de riscos e déssemos as mãos em vez de as repelir?