Opinião
Julgar é fácil
Não deixa de ser dramático ler que o jovem pediu ajuda repetidas vezes e não lhe souberam/conseguiram dar uma resposta que fosse efetiva solução. E a solução encontrada por este tenha sido fazer o problema desaparecer
Nas últimas semanas temos visto e lido sobre notícias a nível nacional relativas a abandono de crianças e violência filio-parental, com homicídio de uma mãe pelo seu filho de 15 anos.
A nível internacional, um pai deixou o filho de 7 anos sozinho numa das estações de caminhada do Monte Fuji e prosseguiu a sua caminhada até ao cume.
Por isso, não é apenas em Portugal. O que não deixa de ser preocupante.
Sobre o caso do abandono em Braga, onde a mãe terá ido trabalhar e deixado a filha de 4 anos ao cuidado da sua irmã de 15 anos durante cerca de 5 dias, não conheço pormenores. Mas uma pessoa não deixa de se questionar.
Quando a rede familiar falha, onde está a rede formal para apoiar? Quando a pessoa pede ajuda porque ou vai trabalhar e lhe dão condições para isso ou vive do Estado?
Nestas alturas lembro-me sempre da parábola do Velho, do Menino e do Burro. Quem está de fora vai sempre julgar e apontar defeitos. Mas qual é a solução?
Estas decisões quase impossíveis fazem-me lembrar os idosos com reformas baixas que muitas vezes têm de escolher entre pagar a conta de farmácia ou comer. Sem medicação, as doenças crónicas agravam-se, sem alimentação adequada ficam mais debilitados.
E então? Sim, felizmente os apoios existem. Mas até esses serviços têm capacidade limite.
A violência filio-parental não é algo de novo. Mas não deixa de ser dramático ler que o jovem pediu ajuda repetidas vezes e não lhe souberam/conseguiram dar uma resposta que fosse efetiva solução. E a solução encontrada por este tenha sido fazer o problema desaparecer.
Se existiam outras opções? Certamente que sim. Contudo, esse é o pensamento adulto.
E eu questiono: onde estavam os adultos responsáveis para tomar estas decisões? No jogo do empurra?
Eu já trabalhei no Sistema de Promoção e Proteção de Crianças e Jovens. É duro. É desgastante e difícil.
As pessoas resistem à mudança, há muitas questões à volta destas famílias, daí chamarem-se multidesafiadas. São questões complexas que não se resolvem “simplesmente” com uma habitação ou um trabalho. Muitas das vezes até é geracional e está profundamente enraizado.
Como, por exemplo, o recurso aos castigos físicos como forma de correção de comportamentos. No entanto, muitas vezes sentia que a Lei de Proteção de Crianças protegia mais o direito biológico de alguém ser pai ou mãe do que os direitos das crianças.
Isto é apenas um ponto de vista. E falhamos todos quando um jovem se sente de tal modo desprotegido pelo sistema que tem de resolver a situação com as suas próprias mãos.
Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990