Editorial

Mão firme e coragem

25 jun 2020 11:21

O Governo terá de endurecer a fiscalização e encontrar formas que dissuadam os incumpridores de continuarem a colocar em causa a saúde pública, mas também o plano de desconfinamento progressivo.

Infelizmente, os números de novos casos nos últimos dias parecem estar a evidenciar o que muitos temiam com o aligeirar das medidas de restrição, mas também com o ‘baixar da guarda’ de boa parte da população, que começa a perder o foco e a resiliência que uma luta destas obriga.

No fundo, dá a ideia que após o medo inicial, por vezes pânico, as pessoas foram-se habituando à existência da Covid-19, alargando exageradamente o raio de acção social e descurando as medidas de protecção, ao mesmo tempo que a impaciência se faz já sentir em muitas cabeças, principalmente nas mais jovens, levando a actos de verdadeira irresponsabilidade.

Entre festas ilegais com centenas de pessoas, ajuntamentos nocturnos em parques e estações de serviço e restaurantes ‘à pinha’ sem as regras de distanciamento estabelecidas, são vários os exemplos de falta de responsabilidade individual e desrespeito pelos outros, principalmente pelos que estão na linha da frente do combate à pandemia.

Com este cenário, o Governo terá de endurecer a fiscalização e encontrar formas que dissuadam os incumpridores de continuarem a colocar em causa a saúde pública, mas também o plano de desconfinamento progressivo.

Se assim não for, corremos sérios riscos de um regresso a medidas mais restritivas, como já está a acontecer noutros países, com todos os impactos económicos e sociais que isso implicaria.

Para endurecer a posição perante os actos de irresponsabilidade, o Governo terá, no entanto, que dar o exemplo e encontrar soluções que evitem novos focos infecciosos, tendo já todos percebido que o que está a acontecer em algumas zonas de Lisboa poderá colocar em risco todo o País e estragar o que foi conseguido inicialmente, que, apesar de tudo, ficou longe do observado noutros países.

Ou seja, se juntar 100 pessoas numa festa ilegal é, nesta fase, absolutamente criminoso, permitir que as pessoas se aglomerem nos transportes públicos que ligam Lisboa às periferias, como tem acontecido, por exemplo, na linha de Sintra, não parece ser muito diferente.

Obviamente que, neste caso, a responsabilidade não é das pessoas, que são obrigadas a ir trabalhar e, em muitos casos, vivem com tantas dificuldades que a Covid não está no topo das preocupações.

Terá de ser o Governo, em conjunto com as empresas empregadoras e as de transportes, a encontrar soluções de desfasamento de horários, transportes dedicados e fiscalização das regras em vigor, para que o problema não se descontrole, não havendo que ter medo de avançar para cercas sanitárias, como aconteceu em Ovar, se a situação se justificar.

Em tempos de excepção, como o que vivemos, espera-se de quem nos governa mão firme e coragem, o que nem sempre tem acontecido.

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