Editorial

Santa Bárbara só quando troveja

30 abr 2020 16:11

Ou seja, se alguma lição podemos retirar deste período em que vivemos, como também aconteceu em 2017, aquando dos incêndios que devastaram o País, é que há áreas críticas para a nossa sociedade que é muito arriscado deixar fragilizar.

"Não é no momento de aflição que se vai dar dinheiro à ciência e aos investigadores para eles produzirem, depressa, uma solução milagrosa”.

Estas palavras são de António Mendes, investigador e especialista na criação de vacinas, natural de Leiria, em entrevista nesta edição, onde critica a falta de “financiamento sustentado, programado, a longo prazo” na ciência, referindo o que todos sabemos há muito: boa parte da investigação feita em Portugal está nas mãos de investigadores precários, muitos deles sem direito, sequer, a Segurança Social.

Estas considerações de António Mendes cruzam-se um pouco com as proferidas por alguns dos elementos da Assembleia Municipal de Leiria na sessão da semana passada, incluindo o seu presidente, António Sequeira, que referiu que esta pandemia veio dar “ainda mais provas” da importância do Serviço Nacional de Saúde (SNS), que, como é sabido, tem sofrido alguma degradação nos últimos anos, o que tem condicionado frequentemente a sua capacidade de resposta.

Ou seja, se alguma lição podemos retirar deste período em que vivemos, como também aconteceu em 2017, aquando dos incêndios que devastaram o País, é que há áreas críticas para a nossa sociedade que é muito arriscado deixar fragilizar, pois a qualquer momento pode-lhes ser exigida uma resposta à qual, devido ao reduzido financiamento, não têm capacidade de dar.

Obviamente que o que o SNS está a conseguir fazer é fantástico, havendo que exaltar o esforço e o espírito de missão dos seus profissionais, como também a ciência portuguesa tem apresentado bons resultados nos últimos anos, principalmente se atendermos às condições dadas aos investigadores, mas será igualmente verdade que o tal “financiamento sustentado” que António Mendes refere nos poderia colocar noutro patamar.

No que respeita ao SNS, por exemplo, é sabido que estão a ser desmarcadas muitas consultas e exames e há já um estudo que refere o aumento de óbitos não relacionados com a Covid-19, eventualmente por se ter puxado a manta, curta, para um lado e destapado o outro.

No fundo, está-se a falar de identificar o que é verdadeiramente estratégico para assegurar a segurança dos portugueses e garantir, com dinheiro e não com palavras, que estamos preparados para adventos extremos que, como muitos especialistas têm referido, serão cada vez mais frequentes.

A lógica de só nos lembrarmos de Santa Bárbara quando troveja, não pode imperar nos serviços de saúde, nos bombeiros e forças de segurança, na ciência ou na educação, pilares absolutamente fundamentais para a nossa saúde, segurança e desenvolvimento.

Enquanto assim for, andaremos sempre atrás do problema, em vez de o esperarmos em condições de o evitar ou de o combater desde cedo.

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