Opinião
O antes e depois
Quase um mês depois do evento que há de marcar as nossas memórias, a região lambe as feridas e poucas coisas voltaram já ao normal
Nestes dias não há ainda, em Leiria, outro assunto: a tempestade Kristin. Em duas meras horas da madrugada de 28 de janeiro de 2026 a vida dos leirienses foi profundamente abalada sem que nada o fizesse prever. Era de tal forma imprevisível que, quando foram dormir, os leirienses nada mais esperavam do que uma noite de inverno como tantas outras, depois de mais um anódino aviso da proteção civil que recomendava a cada cidadão: “fique atento”. A atenção foi inevitável quando ventos ciclónicos (equivalentes a furacões categoria 3, classificados como devastadores) arrasaram toda a região e deixaram aterrorizados os cidadãos.
Com a luz do dia veio a gradual descoberta da destruição, enquanto pelo rádio se percebia que o poder central continuava arrogantemente a ignorar a catástrofe que se tinha abatido. Sem eletricidade, sem água, sem comunicações, o sentimento de isolamento era total. Não de solidão, porque de imediato as pessoas começaram a cuidar das suas coisas, a ajudar vizinhos, amigos, familiares: a urgência era real, e sem comunicações nem TV não havia oportunidade para se deixar levar pela venenosa torrente de ódio que liga as redes sociais aos canais “noticiosos”.
Quase um mês depois do evento que há de marcar as nossas memórias, a região lambe as feridas e poucas coisas voltaram já ao normal. Há telhados ainda a pingar, árvores por apanhar, montras por substituir, pessoas ainda às escuras. Serão meses, anos, décadas até, para que os vestígios desta destruição sejam apagados da paisagem. E as marcas permanecerão em todos. Nos que sentem o coração palpitar ao ouvir o vento a assobiar. Os que recordarão a chuva a entrar impiedosa na casa escura. Nos que viram familiares sucumbir no desespero de reparar um telhado.
Nos que receiam pelo seu emprego, ou pela sua empresa: as perspetivas são sombrias para quem viu instalações, equipamentos, e produtos destruídos em poucas horas – haverá dinheiro e força mental para recuperar e recomeçar?
A tempestade Kristin não é um mero detalhe facilmente esquecido. É um evento com repercussões profundas na região, na vida de muitas pessoas de Leiria. A reconstrução - física, económica e social - dará origem a uma nova realidade, uma nova Leiria. E o sucesso desta nova realidade depende dos cidadãos, mas também dos planos e apoios das lideranças locais, à semelhança do que aconteceu na resposta à emergência. Perante um governo central inepto, a autarquia e o seu presidente terão de ser - como foram até agora - a força motriz da recuperação.
Texto escrito segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico de 1990