Opinião

O Povo na frente

9 mai 2026 21:30

Isolado, cada ser humano é facilmente vergado e destruído - por seres monstruosos ou organismos microscópicos. Em conjunto são capazes de domar até as mais terríveis criaturas, até quando os tempos parecem mais negros e ameaçadores.

As sociedades criam rituais para incentivarem a adoção dos comportamentos que são considerados desejáveis. Por se repetirem periodicamente, permitem transmitir os valores e os comportamentos às sucessivas gerações, permitindo às gerações mais velhas reafirmarem a sua adesão aos princípios vigentes. Os rituais são, no fundo, a cola que constrói a sociedade, ao permitir a construção partilhada de significado ao longo do tempo. Os feriados assinalam momentos particulares da história de uma sociedade - e cada feriado tem o seu próprio ritual. O Natal tem o ritual da família reunida, o Ano Novo celebra um novo ciclo, a Páscoa festeja o renascimento das culturas e a fertilidade.

As últimas semanas em Portugal tiveram dois feriados com os seus rituais específicos. O 25 de Abril celebra o fim da mais longa ditadura fascista da História. Cravos vermelhos, evocação das conquistas da democracia, cânticos conjuntos das músicas que foram senha para a revolução. Seis dias depois celebra-se - em quase todo o mundo - o Dia do Trabalhador. Assinalando a luta dos trabalhadores por melhores condições de trabalho, o 1.º de Maio tem raízes no final do século XIX quando trabalhadores em greve exigiram um horário de 8 horas diárias.

Em comum, os rituais destes feriados têm as grandes manifestações populares. Em várias localidades do país, grupos de pessoas organizam ajuntamentos, desfiles, manifestações. Com mensagens escritas em cartões salvos à reciclagem, palavras de ordem entoadas em coro, e uma sensação de força que só as pessoas em conjunto conseguem ter. Rituais que celebram a união do grupo são essenciais para celebrar a chave do sucesso evolutivo do ser humano. A capacidade de colaborar, cooperar, trabalhar em conjunto foi fundamental para tornar esta espécie de “macaco nu” numa espécie capaz de moldar um planeta e até de sair dele. Isolado, cada ser humano é facilmente vergado e destruído - por seres monstruosos ou organismos microscópicos. Em conjunto são capazes de domar até as mais terríveis criaturas, até quando os tempos parecem mais negros e ameaçadores.

Por muito que nos digam que a única hipótese de sobrevivência é cada um por si, por cada vez que insinuem que só uma minoria sai à rua, por cada narcisista que tente o seu sucesso à custa da desgraça alheia, lembremo-nos das palavras de Cátia Mazari Oliveira (A Garota Não): “Há quem traga mais um | Há quem traga um conjunto | Porque a força que traz | Tem o povo na frente | E ser um dos que faz | Resistência à corrente”.