Opinião
Os jovens de hoje em dia...
Dizem que não queremos trabalhar. Mas quantos jovens acumulam empregos, estudos e projetos, enquanto lhes pedem experiência para conseguir o primeiro emprego?
Os “jovens de hoje em dia” são, aparentemente, um caso perdido. Não queremos trabalhar. Somos uns preguiçosos e menos inteligentes. Passamos a vida agarrados ao telemóvel. “No meu tempo é que era!”
Enquanto jovem adulta, confesso que também tenho momentos em que não entendo os adolescentes. Há pouco tempo depareime com a expressão “farmar aura” e fiquei muito confusa...
Rapidamente me lembrei que cresci numa época em que fazíamos o Harlem Shake, tínhamos uma obsessão estranha por bigodes e tirávamos fotografias com filtros de cães. Talvez a estranheza seja apenas uma tradição geracional.
Sou jovem e já fiz escolhas que outros questionaram. E começo a desconfiar de que todas as gerações, a certa altura, se convencem de que a seguinte está a arruinar o mundo.
Mas há uma diferença entre não compreender uma tendência e declarar uma geração incapaz. Dizem que não queremos sair de casa dos pais.
Em Portugal, a idade média de saída de casa era de 28,8 anos em 2025. Será falta de independência ou falta de salários que permitam pagar uma renda?
Dizem que não queremos trabalhar. Mas quantos jovens acumulam empregos, estudos e projetos, enquanto lhes pedem experiência para conseguir o primeiro emprego?
Investigações recentes revelaram uma queda inédita no desempenho em matemática e leitura nos países da OCDE.
Somos menos inteligentes? Talvez a pergunta seja: o que está a falhar? A educação? A forma como deixámos a tecnologia ocupar a infância? Que condições estamos a criar para aprender e pensar criticamente?
Crescemos entre crises económicas, uma pandemia, guerras, emergência climática e um fluxo interminável de informação. Pedemnos produtividade, resiliência e esperança, mas oferecem-nos precariedade e um futuro cada vez mais incerto. E depois estranham o nosso cansaço.
Nos projetos, associações e encontros em que participo, conheço jovens que trabalham, estudam e dedicam noites e fins de semana a defender direitos, apoiar comunidades e exigir políticas melhores. Alguns fazem tanto que acabam esgotados.
Os jovens não deveriam ter de demonstrar uma produtividade extraordinária para merecer respeito, direitos e condições dignas de vida. Não somos uma geração perfeita. Nenhuma foi. Mas talvez, antes de perguntarem o que há de errado com os “jovens de hoje em dia”, valha a pena perguntar o que há de errado com o mundo que nos estão a deixar. Não queremos apenas herdar o mundo: queremos ter voz na forma como ele é construído.
Texto escrito segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico de 1990