Opinião

Reavivar o espanto

3 jul 2020 10:28

Todos nós herdámos e fomos incorporando no nosso reportório de experiências estórias que assumiram um papel fundamental na definição do nosso papel enquanto indivíduos, transmitidas por familiares, vizinhos e amigos.

Os mitos, as fábulas e os contos, originalmente fundados na tradição oral, permitiam que os adultos e os idosos comunicassem com as crianças num processo ininterrupto, ao longo do seu crescimento, muitas vezes de forma repetida.

Estes legados da sabedoria intergeracional foram instituídos em todos os lugares do mundo e em todas as eras, com a simples e nobre função de educar, entreter e aumentar a conscientização sobre os valores, a moralidade e os costumes, representando uma importante parcela do património cultural e tradicional, reforçando a tolerância e estreitando o conhecimento mútuo entre diferentes gerações.

E isso implicava o contacto directo, presencial, face-a-face, usando também o espectro dos sentidos – escutar, olhar, sentir, tocar, cheirar e reaprender, de modo a colher a essência e os sincretismos da narrativa.

Mesmo sem intencionalidade ou imposição, por via de momentos inusitados de convivialidade, a germinação cultural era um ingrediente oculto e crucial para a aprendizagem.

Todos nós herdámos e fomos incorporando no nosso reportório de experiências estórias que assumiram um papel fundamental na definição do nosso papel enquanto indivíduos, transmitidas por familiares, vizinhos e amigos. E que influenciaram a nossa capacidade de captar o mundo e os seus eventos, o modo de interpretar a realidade e os comportamentos dos outros.

Mas essas estórias sempre tiveram um emissor, cujo papel ou função determinou o significado apreendido e o impacto dessa experiência em nós.

Refiro-me à comoção que a narrativa em nós exaltou, para além da sua componente didáctica ou do conteúdo e moralidade. A dimensão relacional e o domínio da expressão afectiva implícitas no momento.

Há uma componente metalinguística nessas experiências. Algo que toca lugares do corpo e da alma, que são do domínio da subjectividade.

As estórias compensam o que nos faz falta, apresentando padrões positivos de comportamento e modelos construtivos, através das personagens com que nos poderemos identificar ou refutar.

O vazio é preenchido pelo gesto do narrador usando as múltiplas mensagens que aí se alojam.

Tornam-se instrumentos para mapear a realidade.

A crise que enfrentamos não é apenas sanitária, económica, financeira ou política. É muito mais.

É um rombo irreversível na dimensão psicológica, social, educacional, cultural e ética, gerando angústias devido à percepção enviesada de uma existência precária, que em todos nós ocorre, atolados que estamos no entorno cibernético, onde prolifera paradoxalmente o crescente individualismo e insensibilidade à dinâmica da instrução tradicional, tudo isso mascarado pelo carácter da universalidade e da protecção sanitária.

Apesar do sistema educacional estar a lidar com numerosas exigências, a família, a escola e a comunidade, por via dos seus recursos relacionais de ensino-aprendizagem, ainda representam o palco primordial para potenciar o desenvolvimento holístico de cada um.

Mesmo com uma máscara a servir de cortina, podemos recorrer às estórias (lidas ou contadas), para continuar a influenciar as crianças através dos mecanismos do envolvimento, imitação, identificação e deslumbramento, combatendo a sua vaticinada inaptidão social. Ignorando o caos do futuro, já Eça de Queiroz afirmava que «contar histórias é uma das mais belas ocupações humanas: todas as outras tendem mais ou menos a explorar o homem; só essa se dedica a entretê-lo, o que tantas vezes equivale a consolá-lo».

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