Opinião
Spoiler alert: este texto não é sobre estrelas
Amar, ou amor deveriam significar cui-dar ou o-fe-re-cer com genuína gratuidade atenção a si, e/ou ao outro
Se há uma coisa que uma pandemia, um apagão e uma tempestade deviam ter-nos ensinado foi a valorizar a importância de um tempo lento, ou seja, da urgência da mais-valia de desacelerar, de fazer o que se pode com a melhor das intenções priorizando a qualidade em detrimento da fugacidade e agitação de todos os dias…
Um tempo para “o-be-ser-var”… para que cada um e cada uma possam simplesmente ser, va-ga-ro-sa-men-te, estar consigo e com os seus a ver a natureza desabrochar como numa semente que germina len-ta-men-te até ser árvore.
Muita coisa tem mudado com as novas tecnologias e com o frenesi diário, mas num exercício simples de desligar o telefone e a televisão e parece que a vida toma novas cores e floresce como numa primavera de múltiplas possibilidades.
Os telemóveis e as tecnologias distratoras vieram não só roubar-nos o tempo lento para cozinhar com vagar, para mondar as ervas daninhas das aromáticas, ou cuidar dos parasitas das flores do nosso jardim, para bordar, tricotar, usar as mãos uma atrás da outra para criar, como num tear ou no crescendo de uma cesta de vime, como vieram matar o amor romântico ou fraterno, seja na forma de amar, seja na forma de disputar a atenção face a estímulos que se adentram pelos olhos de uma tela.
Amar, ou amor deveriam significar cui-dar ou o-fe-re-cer com genuína gratuidade atenção a si, e/ou ao outro. Criar uma ligação que acolhe, apoia, se faz colo e porto seguro e que consequentemente pressupõem um tempo vagaroso e de qualidade para que as emoções e o conforto que se encontra na relação com o outro de-sa-bro-chem e for-ti-fi-quem .
E isso, quanto a mim só se consegue com pele, com toque, com presença, uma presença que exige tempo, tempo lento, tempo lentíssimo e, escolha… e todos sabemos como as escolhas e as possibilidades são infindáveis dentro de um ecrã que nos cabe na algibeira.
A urgência quase doentia de estar sempre a par de tudo, ligado ou conectado profissionalmente ou a lazer com uma multiplicidade de estímulos matou pequenos prazeres como ouvir a doçura dos canora dos pássaros, de molhar os pés no rio ou no mar em solitude, ou de braço dado com os nossos “besties”e as gargalhadas de os ouvir gritar que a água está gelada, ou que as pedras picam os calcanhares.
Afastou-nos das mãos dadas e dos olhos nos olhos ao pôr do sol, dos piqueniques inusitados, dos papelinhos e das cartas de amor, ou do meditar de pés descalços na terra a sós ou em companhia, do tempo para nos sentarmos na rede que nos embala de-va-ga-ri-nho, ou na sanita como antigamente, len-ta-men-te a ler o jornal do dia, ou os livros de índios e cowboys…ou para ver as estrelas.
Termino com uma breve passagem do livro Polo Norte de Erling Kagge: “No Egito era comum pensar-se que havia uma sabedoria oculta nas estrelas (…) Hoje em dia podemos passar a vida inteira no Cairo ( …) ou em qualquer cidade sem nunca ver as estrelas. Há tanta luz artificial nas cidades que as estrelas deixaram de ser visíveis no céu noturno (…) senti que era uma pequena tragédia que uma fonte natural de sabedoria tivesse desaparecido e que a maior parte dos habitantes da cidade vivesse como se as estrelas tivessem cessado de existir”…
Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990