Opinião
Uma História da Arte também com mulheres
"Mulheres sempre participaram nos grandes movimentos artísticos, apesar dos obstáculos sociais que enfrentaram"
Começo a escrever esta crónica a 21 de Junho.
Ao abrir How to Live an Artful Life: 366 Inspirations from Artists on How to Bring Creativity to Your Everyday, o mais recente livro da historiadora de arte britânica Katy Hessel, descubro que a entrada dedicada ao dia é um convite a olhar para o céu e para a passagem do tempo.
A protagonista é Nancy Holt, uma artista norte-americana conhecida pelas suas esculturas e instalações públicas.
No breve texto intitulado Look Up, Look Around, Hessel recorda que o dia 21 de Junho assinala o solstício de Verão, o dia mais longo do ano.
Foi precisamente a relação entre a luz, o espaço e o cosmos que inspirou Holt na criação dos seus célebres Sun Tunnels, construídos entre 1973 e 1976 no deserto de Utah.
A obra consiste em quatro enormes cilindros de betão dispostos em forma de X. Durante o dia, os túneis enquadram a vastidão do deserto e a imensidade do céu.
As pequenas perfurações nas suas paredes reproduzem as constelações de Capricornus, Columba, Draco e Perseus, permitindo que a luz solar as projecte no seu interior.
Duas vezes por ano, nos solstícios de Verão e de Inverno, o sol alinha-se perfeitamente com as suas aberturas, proporcionando aos visitantes a sensação de estar a caminhar entre as estrelas.
Ao chamar a atenção para os fenómenos naturais, Nancy Holt devolve-nos o ambiente que constantemente nos acolhe, e que frequentemente ignoramos.
Esta é apenas uma das 366 histórias reunidas no livro de Katy Hessel.
Ao longo das suas páginas, a autora apresenta artistas tão diversas como Marina Abramović, Louise Bourgeois, Nan Goldin, Niki de Saint Phalle ou Paula Rego, mostrando como a arte pode transformar a forma como observamos o mundo.
Mais do que um livro de história da arte, trata-se de um convite para começar o dia com uma nova inspiração artística.
Foi, contudo, através da página de Instagram @TheGreatWomenArtists, criada em 2015, que Katy Hessel se tornou conhecida.
Hoje seguido por meio milhão de utilizadores, o projecto nasceu com o objectivo de dar visibilidade às artistas esquecidas pelos relatos tradicionais da história da arte.
O sucesso da iniciativa levou ainda à criação de um podcast com o mesmo nome, onde Hessel entrevista algumas das mais relevantes artistas, escritoras e pensadoras da actualidade.
Este trabalho de divulgação culminaria, em 2022, na publicação de A História da Arte sem Homens.
Na obra, editada em Portugal pela Objectiva, Hessel revisita cinco séculos de criação artística colocando as mulheres no centro da narrativa. Não para excluir os homens, mas para mostrar o que acontece quando olhamos para a história através de uma perspectiva diferente.
Em vez de acrescentar nomes femininos a um cânone já estabelecido, Katy Hessel reorganiza a própria narrativa.
Demonstra que as mulheres sempre participaram nos grandes movimentos artísticos, apesar dos obstáculos sociais que enfrentaram.
Através de uma rara combinação entre rigor académico e capacidade de comunicação, Hessel permite ao leitor descobrir uma história da arte mais rica e fiel à realidade.
O seu trabalho não reescreve a história da arte: amplia-a.
E lembra-nos que, para compreender verdadeiramente o passado, é preciso escutar todas as vozes que dele fizeram parte.