DEPRESSÃO KRISTIN

Dias sem luz. Natália é porto de abrigo da mãe acamada e do pai

6 fev 2026 15:48

“Naquela noite, não tive medo. Mas agora tenho. Medo do futuro, porque sei que isto vai ser o futuro. Que vamos ter mais episódios destes", diz Natália Guarda, residente em Alqueidão, na Boa Vista, Leiria

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Maria Anabela Silva

Natália fala com a voz embargada. A angústia mistura-se com a revolta contra um Estado, que no seu entender, “abandonou os seus”, a começar pelos mais vulneráveis, pessoas idosas e/ou acamadas, como os seus pais, de 76 e 82 anos, a quem tem valido nestes dias difíceis, sem luz e, até domingo, sem água.

“É triste. Não se vê uma luz, não aparece ninguém para ajudar. Só cá vi uma polícia, à procura do meu marido, que é agente funerário, e porque precisava de ajuda. Não estou a dizer a câmara ou a junta não estão a fazer coisas, porque estão. O Estado é que devia ter posto cá mais meios e mais cedo”, expõe Natália Guarda, residente em Alqueidão, na União de Freguesias de Santa Eufémia e Boa Vista.

Nessa aldeia, às portas de Leiria, a população vive, desde a madrugada de dia 28, sem luz e sem comunicações, situação que, dez dias após o temporal, comntinua a afectar milhares de pessoas na região. No caso de Natália, a situação traz uma dificuldade acrescida, por a mãe que tem ao seu cuidado se encontrar acamada.

“Já viu o que é dar banho a uma pessoa assim, à luz de vela ou de lanterna, numa bacia com água aquecida no fogão a gás? Tem sido esta a minha vida”, diz, fazendo questão de sublinhar que as suas palavras não são de queixume pela sua situação pessoal, mas antes “um alerta” para casos similares e “ainda piores espalhados por essas aldeias”. “Falo, não por mim, que sou autónoma, nem pelos meus pais, que têm quem olhe por eles, mas pelos outros, que não têm quem lhes possa valer. E há situações dessas”, alerta, abrindo-nos a casa dos pais, onde a escuridão é esbatida pela luz de uma vela e a chama da lareira.

Do rádio a pilhas, que Natália lhes levou para “ajudar a passar o tempo”, sai o som do relato do jogo do Braga contra o Aves, que o pai acompanha com o gato sentado no seu regaço. Deitada na cama, a mãe aguarda pela ajuda da filha, que irá tratar da sua higiene. “É voltar aos tempos antigos, do banho na bacia, da luz das velas e do rádio a pilhas”, constata Natália Guarda, que conduz o testemunho até à madrugada do temporal.

“Não estava em mim para, às quatro e meia da manhã, com a aquele vento, subir dois vãos com 20 escadas até ao sotão. E pior, eu e o meu irmão fizemos a asneira de abrir as portas”, conta, confidenciando que o medo veio depois. “Naquela noite, não tive medo. Mas agora tenho. Medo do futuro, porque sei que isto vai ser o futuro. Que vamos ter mais episódios destes.”

Desta vez, e no seu caso pessoal, saiu ilesa e os danos ficaram-se pelo telhado da casa, que conseguiram repor no dia dia seguinte, aproveitando a “trégua” dada pelo mau tempo. Mas, frisa, em aldeias vizinhas, como Caxieira ou Bregieira, em Santa Eufémia, a “devastação foi bem maior”.