DEPRESSÃO KRISTIN

Na fronteira mais remota de Leiria, há 11 dias sem electricidade nem comunicações

7 fev 2026 19:29

No Grou, os moradores continuam a depender de geradores e só conseguem comunicações fora de casa à saída da povoação

na-fronteira-mais-remota-de-leiria-ha-11-dias-sem-electricidade-nem-comunicacoes
“Não há telefones, o único sítio em que conseguimos apanhar rede, é daqui”
Ricardo Graça

Vítor Ramalho tem 60 anos e celebra o aniversário a 28 de Janeiro, data que agora associa ao temporal provocado pela depressão Kristin que fez a aldeia do Grou recuar décadas e voltar ao tempo das rotinas vividas sem iluminação pública.

“Ainda me lembro de estar a fazer os trabalhos da escola com candeeiro a petróleo”, comenta com o JORNAL DE LEIRIA. “A luz veio para aqui quando eu tinha sete anos”.

Há 11 dias sem electricidade nem comunicações, os moradores do Grou, na fronteira mais remota de Leiria, a mais distante da sede de concelho, no limite norte que encosta ao município de Pombal, saem de casa para conseguir ligação à internet, só disponível à saída da povoação, na zona conhecida como “guarda do sul”, pegada às matas nacionais.

No Grou, há ruas que pertencem ao concelho de Leiria e outras que já são território de Pombal.

Dentro do carro, Vítor Ramalho procura contacto com o resto do mundo, que por estes dias, está muito limitado. “Não há telefones, o único sítio em que conseguimos apanhar rede, e também chamo para a minha esposa para os Estados Unidos, é daqui”.

Só dois dias depois de a depressão Kristin atingir Portugal é que o emigrante pôde avisar a família mais próxima, na região de New Jersey, do lado de lá do Atlântico.

“Vim aqui para festejar os meus anos e tive de cancelar tudo, mas são partes da vida, é assim”, explica.

Apesar de residir há várias décadas nos Estados Unidos, onde episódios meteorológicos extremos são frequentes, Vítor Ramalho diz não se lembrar de um evento igual. “Aqui tive um bocadinho mais de receio”, admite. “Pensei: isto vai tudo pelo ar”.

De férias em casa de familiares, mantêm a rotina com recurso a um gerador. “Fiz ligação directa à casa, desliguei o quadro”. Durante vários dias, também faltou a água.

O fornecimento de electricidade foi reposto pela primeira vez e momentaneamente na sexta-feira (6 de Janeiro) mas hoje já estava novamente em baixo.

A cerca de 25 quilómetros dos Paços do Concelho, a dependência de geradores para ter energia eléctrica é partilhada pelos outros habitantes do Grou, como o casal Rui e Vanessa, que esta tarde se dirigiram para a “guarda do sul” com o objectivo de conseguirem internet “para os pequenitos”.

Este sábado, à hora de almoço, o presidente da Câmara de Leiria avançou que no concelho ainda existiam 20 mil contadores sem electricidade.

Gonçalo Lopes divulgou uma carta aberta dirigida ao presidente do conselho da administração da E-Redes e saída da reunião mantida hoje entre o Município e os presidentes das juntas de freguesia do concelho, em que os autarcas de Leiria pedem respeito pelas populações, defendem que os lesados sejam ressarcidos e criticam a falta de informação e a insuficiência de medidas.

Falamos de famílias, de produtores agrícolas, de empresas locais, de lares, de pessoas isoladas e vulneráveis que continuam numa situação de grande fragilidade, muitas vezes sem qualquer informação clara sobre quando será reposta a normalidade”, pode ler-se no documento.

“A falta de informação objectiva, actualizada e acessível, associada à inexistência de respostas visíveis de compensação em muitas situações, tem vindo a gerar ansiedade, indignação e um sentimento crescente de abandono”, é referido no mesmo texto.

Os autarcas destacam o impacto psicológico que encontram no terreno. “Somos nós que recebemos diariamente as chamadas, as queixas, o cansaço e a exaustão de quem já não consegue suportar mais dias sem electricidade”.