Viver
Tudo o vento da Kristin levou, mas A Porta não derrubou
Festival confirmado para 3 a 7 de Junho
Com o lema “O que o Vento não levou”, o festival A Porta regressa para a sua 11.ª edição entre os dias 3 e 7 de Junho.
A região de Leiria foi assolada pela tempestade Kristin na madrugada do dia 28 de Janeiro e deixou a população sem telhados, telecomunicações e mesmo casas.
Foi com os efeitos da passagem do mau tempo em mente que o festival divulgou um manifesto, onde refere que a edição de 2026 “explora o conceito de Khana, uma palavra de raízes antigas que significa 'casa', 'morada', ou 'lugar de pertença'”.
A organização d'A Porta sublinha que o vento pode ter levado várias coisas, mas “não levou a resiliência”, e que “o que ficou de pé é o que realmente importa”.
A programação completa e os locais definidos para o evento serão anunciados a 30 Abril.
MANIFESTO A PORTA 2026
Janeiro de 2026 ficará marcado na memória de Leiria como o mês em que o tempo parou.
A tempestade Kristin não foi apenas um fenómeno meteorológico; foi um golpe profundo na nossa geografia afectiva.
Durante semanas, o silêncio da cidade só era interrompido pelo som das serras eléctricas e das águas que galgaram as margens.
Sem luz, sem comunicações, fomos todos confrontados com o limite.
Ficar em casa não foi uma opção.
Para muitos, a casa foi o ponto de partida para a urgência: foi preciso sair para ajudar o vizinho, para erguer muros, para limpar a lama e para reparar o que o vento tentou levar.
A vida aconteceu na superação, no esforço de quem não pôde simplesmente recolher-se.
Tudo isto exigiu de nós que olhássemos para a ideia de "casa" com outros olhos.
Por isso, este ano, o festival A Porta explora o conceito de Khana, uma palavra de raízes antigas que significa literalmente "casa", "morada" ou "lugar de pertença".
Mais do que um teto físico, Khana representa o nosso refúgio interior e o espaço de segurança onde nos podemos voltar a erguer.
É uma escolha deliberada de habitar a intimidade da antiga Pousada da Juventude para redescobrir o que significa, hoje, ter um abrigo, assumindo em simultâneo a extrema fragilidade desse mesmo conceito.
Num ano em que tantos viram os seus telhados voar e a ilusão da permanência desabar, escolhemos as paredes sólidas do centro da cidade não como um esconderijo, mas como um espaço de reconstrução.
"O que o Vento não Levou" é o nosso lema e a nossa prova de vida.
O vento levou árvores e alterou paisagens, mas não levou a resiliência de uma comunidade que sabe que, para caminhar lá fora, precisa primeiro de entender o seu centro.
O vento soprou forte, mas a nossa Porta continua aberta, e agora, mais do que nunca, sabemos que o conceito de casa é algo que carregamos connosco, mesmo quando somos forçados a sair para o mundo.
O que ficou de pé é o que realmente importa.