Viver

Da Herança

26 jan 2017 00:00

O objectivo material é não deixar dívidas para eles pagarem.

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Pelos vistos parece muito mal preferirmos coisas para os nossos filhos, mas mesmo assim eu prefiro, e vou explicar, que sou uma pessoa que gosta de viver no limite. Prefiro que sejam bonitos (e tive a sorte de serem, sob ameaça do pai que dizia que se não fossem bonitos queria testes de ADN porque não eram dele…), prefiro que sejam boas pessoas, prefiro que sejam bem sucedidos, prefiro que gostem de música, que sejam saudáveis, etc.

Preferir é diferente de escolher por eles, ou de gostar menos deles no futuro, caso as nossas “preferências” sejam goradas, porque, sim, há certas coisas que não se escolhem. Então, resta-nos confiar na nossa herança genética? Ou será legítimo criar condições para que eles sejam um pouco mais aquilo que nós gostaríamos que fossem? Não será isso o que se chama educar? Se eu lhes mostrar boa música (ou música de que eu gosto… seja ela boa ou má) não estarei a contribuir para que eles venham a gostar de música no futuro? E isso não será também uma herança importante?

Se eu lhes der uma alimentação saudável, por exemplo, não estarei a educá-los no sentido de escolherem uma alimentação saudável mais tarde? Sim, porque como infelizmente não lhes posso deixar uma grande fortuna material (porque não a tenho, nem há perspectivas de vir a ter, muito menos ao ritmo que pagamos contas de três dígitos no supermercado repletas de pacotes de fraldas, leite em pó e alimentos vários…), contento-me com alguns valores morais que lhes tento incutir. O objectivo material é não deixar dívidas para eles pagarem.

Quanto ao resto, temos uma caixa com a série completa do Seinfeld, que pode ajudar os nossos filhos a encararem a vida com o bom humor que é necessário nas situações do dia a dia, e ensinar-lhes que somos todos ridículos e isso não é uma tragédia, faz parte. Temos uma ou duas guitarras que podem ou não sobreviver à passagem do tempo. Havia outra mas já se partiu.

Temos fotografias de momentos felizes e experiências, que mesmo que eles não se lembrem mais tarde eu acredito que lhes formam a personalidade: fazer viagens, viver a diversidade, mexer na terra, apanhar musgo, nadar no mar, brincar com animais, sei lá… Temos um grupo de amigos, com filhos e sem filhos, com quem eles interagem e aprendem perspectivas diferentes da vida. Dos quais eles também são amigos e com os quais, quem sabe, vão continuar a conviver depois de nós já não estarmos cá. Temos tradições familiares, maneiras de estar, vivências.

E é essa a nossa herança. O resto eles é que irão decidir. Esperamos dar-lhes as bases para que decidam bem.

Ninjas e Princesas por Rita Gomes