Economia

Guerra no Golfo Pérsico aumenta preço do gás e pode “partir a loiça toda”

12 mar 2026 08:00

Para a indústria cerâmica, os ataques dos EUA e Israel ao Irão meteram o relógio a contar. A fileira admite aguentar até quatro semanas sem repercutir os custos no mercado. Depois, será impossível segurar preços

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Desde 28 de Fevereiro, o preço do gás natural já conheceu vários picos históricos
Fotografia: Ricardo Graça
Jacinto Silva Duro

Associação Portuguesa das Indústrias de Cerâmica e Cristaleira (Apicer) anunciou publicamente que, se os ataques dos EUA e de Israel ao Irão ultrapassarem um período de quatro semanas “é impossível” manter os preços de produção.

A influenciar a subida dos valores está o gás natural utilizado para manter os fornos de cozedura em funcionamento.

Neste momento, o abastecimento nacional depende sobretudo da Nigéria (51%) e dos Estados Unidos (40%), o que coloca o nosso País longe do bloqueio do Estreito de Ormuz, ponto de passagem de cerca de 20% do petróleo mundial, segundo a informação disponibilizada pela Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE).

Mesmo assim, alertam os empresários ouvidos pelo JORNAL DE LEIRIA, as alterações na oferta global podem espelhar-se nos preços nacionais da energia.

“Há muitas variáveis envolvidas”, reconhece Marcelo Sousa, administrador-executivo da Matcerâmica, um dos maiores fabricantes de cerâmica da região.

O empresário recorda que, em 2022, durante a invasão da Ucrânia pela Rússia, a fileira teve de lidar também com uma escalada o preço e que então, tal como agora, se falou em várias soluções para mitigar a crise.

“Em apenas dois ou três dias, vimos o preço do gás atingir um pico de quase 80%.”

Um aumento que acaba por ter impacto em Portugal, apesar de cerca de 90% dos hidrocarbonetos que transitam pelo Golfo Pérsico e Estreito de Ormuz terem como destino, maioritariamente, a Índia e a China.

Com o fornecimento suspenso, estes países são obrigados a procurar alternativas, fazendo diminuir a quantidade disponível no mercado.

Preço do gás encarece produção

“Admito que, até quatro semanas, se consiga encaixar sem transmitir ao mercado os aumentos de preço e a cadeia de valor vai encaixar o custo adicional. Ultrapassado esse tempo, é impossível que as empresas consigam manter os preços”, reconhece o vice-presidente da Apicer.

Em declarações à Lusa, Paulo Almeida alerta que o custo do gás “praticamente está a duplicar” em relação ao período anterior ao conflito, quando se registava uma tendência de descida desse valor.

Luís Ferreira, outro empresário do sector, recorda que, no dia 17 de Fevereiro, o preço do gás estava a 29,8 EUR/MWh, atingindo, no dia 9 de Março, 55,7 EUR/MWh.

Mas, no dia 10, após a sugestão de Donald Trump, presidente dos EUA, que os ataques do seu país e de Israel ao Irão “terminariam em breve”, o preço dos futuros do gás caiu mais de 13%, apesar de, no Estreito de Ormuz, o tráfego de navios metaneiros (GNL) se manter suspenso.

“Se a situação não se alterar, também a conta da luz sofrerá um aumento. É que o custo da electricidade na Europa é determinado pelo custo dos ciclos combinados indexados ao preço do gás natural.”

A Apicer defende que “sejam criadas medidas de apoio a alguma estabilidade no preço do gás natural para apoiar as empresas nesta fase” e que o Governo “deve subsidiar o consumo de gases renováveis”, ajudando, por um lado, na descarbonização, e, por outro, a deixar “de haver este impacto tão directo do gás natural”.

Paulo Almeida acrescenta que, numa terceira fase, o consumo subsidiado, vai ajudar à criação de um mercado de biometano e de hidrogénio viável.

Mas enquanto este cenário não se concretiza, no caso da Matcerâmica, Marcelo Sousa sabe que terá de suportar os custos nas encomendas antigas e deposita esperança em eventuais medidas de contenção de preços.

Uma das possibilidades passa por os G7 inundarem o mercado com parte das suas reservas e deixarem a oferta e a procura reduzirem os valores dos combustíveis.

Anunciado em 2022

Aumento de armazenamento no Carriço parado
 
Portugal dispõe de reservas de gás para cerca de 93 dias de consumo em caso de disrupção, boa parte localizada nos reservatórios subterrâneos do Carriço, em Pombal, segundo um anúncio da Entidade Nacional para o Sector Energético (ENSE).
 
Os níveis de armazenamento nas instalações da REN Armazenagem situam- -se nos 76,72%, acima da média europeia de 29,40%, embora em termos absolutos o nosso País tenha uma das menores capacidades de armazenamento da União Europeia.
 
Para reforçar a capacidade, perante os constrangimentos provocados pela invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, foi anunciada a criação de novas cavernas subterrâneas.
 
O investimento estimado era de 90 milhões de euros e a entrada em operação deveria acontecer em 2028, contudo, com o fim do Governo PS e a sua substituição pelos Executivos da AD, o processo ficou suspenso.
 
A REN, entidade, responsável pela gestão do sistema nacional de gás, admite, por isso, que o calendário de entrada em funcionamento é apenas “indicativo”, pois a concretização da obra “depende da decisão de aprovação” do Estado.