Viver
Palavra de Honra | O mundo precisa de pensamento crítico, não de químicos a dissolvê-lo
Jorge Figueiredo, arqueólogo
Já não há paciência... para mentirosos, manipuladores e bajuladores. São desperdício de tempo. E também para a ignorância dos que atiram tinta a obras de arte para salvar o planeta. É ridículo e ofensivo para as expressões mais louváveis da humanidade. É poluição. O mundo precisa de pensamento crítico, não de químicos a dissolvê-lo.
- Detesto... que traiam a minha confiança. Que me falem na primeira hora da manhã e interrompam a minha introspeção. Isso irrita-me mesmo.
- A ideia... é simplificar, descobrir, fruir mais e ser um pouco mais senhor do tempo que me escapa.
- Questiono-me se... , Camões, Pessoa, todos os grandes poetas, filósofos e homens de ciência do passado teriam tido a mesma genialidade, se tivessem tomado antidepressivos que lhes tirassem o desassossego.
- Adoro... , no afeto ou no trabalho, pessoas que se entregam e recebem verdadeiramente, sem reservas ou preconceitos, e a minha solidão. Adoro a transição entre a noite e o dia. Tudo parece suspenso… e possível. É a hora dos criativos e dos amantes exaustos… do caldo verde que aconchega e das confissões sem filtros… Quando o sol nasce, volta o tempo dos mortais anestesiados pela rotina que mata todas as boas ideias.
- Lembro-me tantas vezes... do contrabando do meu pai, quando vínhamos de férias a Portugal, nos anos setenta. De como fingíamos dormir nos sacos-cama recheados, confiantes que a guarda-fiscal não os iria verificar, para não acordar as inocentes criancinhas. Isto era tudo encenado com antecedência. No regresso a França, ia a aguardente, 4,5 litros por garrafão dentro de um preservativo. O meio litro do gargalo, era vinho rasca feito em casa para enganar a guarda, que sacava a rolha e vazava um pouco para confirmar se era só “tintol da terra”.
- Desejo secretamente... acabar os escritos que só falta rever ou concluir e publicá-los no anonimato dos meus pseudónimos. Não quero que lhes atribuam rosto, nem me apetece ser bajulado ou ter conversas de conveniência com gente que, provavelmente, ou não gosta ou inveja. Gosto de reconhecimento, mas dispenso feiras de vaidades. São um frete. Também confesso que não sei se o que escrevo tem qualidade.
- Tenho saudades... dos silêncios meigos da minha mãe, sempre que eu estava prestes a tomar a decisão errada. Era um respeito pela minha liberdade que me levava sempre a pensar melhor. Saudades de cantar e da boémia que eu julgava ser vida dura.
- O medo que tive… de ser “normal”, uma contradição que me aflige, porque tudo fiz para ser apenas “normal” e exercer o meu direito ao esquecimento, a dissolver-me no anonimato e, no entanto, também gosto do reconhecimento e sou sensível ao elogio. Para um trabalhador da memória, não deixa de ser irónico, esse direito ao esquecimento.
- Sinto vergonha alheia... da falta de caráter e da hipocrisia dos dirigentes europeus perante a situação dos palestinianos. Que a base das Lajes sirva a logística de uma guerra insana.
- O futuro... é de resistência e de esperança. Não acredito que a vida tenha um sentido, um desígnio previamente escrito. É vida e pronto. Cabe-nos dar-lhe o sentido que mais nos realize.
- Se eu encontrar... uma bifurcação de caminhos ideológicos com indicações para onde devo ir, provavelmente, vou pelo meio do mato.
- Prometo... exercitar a paciência, trabalhar a coerência entre o que penso e o que faço, não ser politicamente correto, vendendo a alma ao diabo, apesar do custo que tudo isso tem.
- Tenho orgulho... na resiliência dos meus irmãos e do caminho que trilhamos juntos, nas pequenas vitórias dos meus filhos que lhes acrescentam MUNDO, nos sucessos dos que me são próximos, nos quais incluo os meus amigos, aqueles que contam em qualquer circunstância. Tenho mesmo.