Opinião

A história do Jesse e do Carl

17 out 2020 17:02

Jesse Owens, tornado símbolo da resistência ao preconceito racial, sublimado na sua “afronta” a Hitler, afinal acabou por sofrer ao longo da sua vida, no seu país, a quem deu tanta glória, desse mesmo preconceito.

Em 1935, num torneio universitário, o atleta Jesse Owens bateu em 45 minutos quatro recordes mundiais: o de 100 jardas, o de salto em comprimento, o de 220 jardas obstáculos e o de 4x100 metros.

Até hoje, os quarenta e cinco minutos mais fantásticos de toda a história do atletismo.

Convocado para os Jogos Olímpicos de Berlim de 1936, Jesse Owens confirmou as suas qualidades excepcionais: foi medalha de ouro nos 100 e 200 metros, no salto em comprimento e nos 4 x100 metros.

Ficaram célebres esse jogos por várias razões: por terem sido em Berlim, em plena afirmação do regime nazi, ia já avançado todo o plano de extermínio dos judeus com base na crença da supremacia ariana, e eram já inúmeros os campos de concentração; e por adivinharem novo conflito mundial.

Nesses jogos, pela primeira vez na sua vida, Jesse Owens pôde partilhar as mesmas instalações, sanitários e refeitórios com os seus colegas brancos, situação que nunca mais se veio a repetir.

Ficou célebre a sua prova de salto em comprimento e o regozijo que o seu colega e principal adversário, o alemão Carl Luz Long, publicamente manifestou (filmado pela notável realizadora de serviço Leni Riefenstahl), tornando-se a partir dali amigos.

Ficou na memória o facto de nunca ter sido cumprimentado por Adolf Hitler.

Jesse Owens, tornado símbolo da resistência ao preconceito racial, sublimado na sua “afronta” a Hitler, afinal acabou por sofrer ao longo da sua vida, no seu país, a quem deu tanta glória, desse mesmo preconceito.

Uma realidade que no contexto dos documentários sobre os seu feitos, quase todos de produção norte americana, acaba por ser escamoteada ou apenas envergonhadamente referida.

Não recebeu as felicitações do presidente norte americano Franklin Roosevelt e, em plenas celebrações entusiásticas das suas vitórias, teve que aceder ao auditório do selecto hotel Waldorf Astoria pelo elevador de serviço.

Jesse Owens depressa se confrontou com uma crua realidade: as medalhas e o prestígio adquirido não lhe davam o suficiente para alimentar a família.

Obrigado a competir por dinheiro, viu por esse motivo ser-lhe retirado o estatuto de atleta amador, inibindo-o de correr em provas oficiais e de participar nos Jogos Olímpicos seguintes.

Nessa necessidade absoluta de ganhar a vida, fez exibições de corridas contra cavalos, foi empregado em jardins de infância, fez fretes, foi dono de uma lavandaria.

Só nos anos 50 foi “contratado” pelo Departamento de Estado para ensinar atletismo, como embaixador internacional da boa vizinhança, tendo percorrido inúmeros países nessa missão.

Morreu com cancro pulmonar, em 1980, aos 67 anos.

O seu amigo Carl Ludwig “Luz” Long, com quem partilhou o pódio do salto em comprimento, e com quem se correspondeu nos anos seguintes, morreu ao serviço do exército alemão, durante a invasão norteamericana da Sicília, em 1943.

Numa fase da guerra em que para ambos os contendores a ordem era a de não se fazerem prisioneiros, acabou fuzilado conjuntamente com dezenas de camaradas.

Aos 30 anos.

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