Opinião

Assim se vê

23 mar 2020 09:14

Mas resta a esperança: se conseguimos parar para conter um vírus (e conseguimos!), aproveitemos para parar e pensar no resto.

O tema é inescapável. Entre 40 a 70% da população será infectada pelo novo Covid-19.

Os dados ainda são escassos e provisórios, mas isto já sabemos: este vírus não será uma prova à nossa capacidade de sobrevivência enquanto espécie, mas antes à nossa capacidade de nos elevarmos na solidariedade.

A mais importante lição que o novo vírus Corona nos vem dar, e que é também uma derradeira oportunidade, é saber se estamos ou não preparados para cuidarmos um dos outros, mesmo que não estejamos individualmente em risco.

Não colocar as pessoas mais vulneráveis em risco significará mandar uma enorme quantidade de gente fechar-se em casa para conter o contágio.

Mas ficar em casa significará ficar sem trabalhar, e para pessoas em situação laboral precária, sem protecção social, isso será, certamente, devastador.

Quem os protege a eles? E aos pequenos negócios, que vivem no limite e não aguentam fechar uma semana, quanto mais um ou dois meses? E para quem está a viver na rua, ou numa situação de extrema vulnerabilidade, quem vai cuidar deles?

Quem vai cuidar de quem cuida dos nossos idosos, nos lares? Para manter o difícil equilíbrio, será necessária uma precisa combinação de responsabilidade e solidariedade.

Quem puder, com os devidos apoios, deve ficar em casa recolhido, saindo apenas para ir fazer as necessárias compras, de forma ordeira e racional - para si e talvez para um vizinho que não possa sair de casa.

Mas quem tiver de trabalhar fora de casa tem de ser apoiado por redes de solidariedade que possam cuidar dos seus, enquanto eles cuidam de todos.

Se houver quem não entenda a seriedade do momento, há ainda muitas medidas bem robustas que podem e devem ser tomadas, sem anular as nossas liberdades e garantias, como Costa tão bem explicou.

Todos vamos ter de contribuir, cada um na medida das suas possibilidades, mas capacitemo-nos: toda a gente vai perder alguma coisa.

Assim se vê o quão frágil e insustentável é o sistema que achamos tão inevitável e eficiente.

Claramente, não é nem uma coisa nem outra!

Mas resta a esperança: se conseguimos parar para conter um vírus (e conseguimos!), aproveitemos para parar e pensar no resto.

A questão é: estamos dispostos e cientes? Assim se verá.

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