Opinião

Até Abril, Cave

28 out 2019 11:14
hugo-ferreira-fundador-da-omnichord-records
Hugo Ferreira, fundador da Omnichord Records

O Nick Cave tem sido a minha maior referência musical desde a adolescência.

Quando ouvi, pela primeira vez, Tender Prey, The Good Son e Henry’s Dream cheguei à conclusão que tinha ali uma explosão musical e lírica que me enchia as medidas, o que me levou a vasculhar tudo o que ele tinha feito antes - desde os Boys Next Door - e a ficar fã de tudo o que ele iria fazer nos tempos seguintes.

Live Seeds o primeiro CD que comprei e que estreou o meu velho leitor, Live at Paradiso foi a primeira VHS que comprei com o que sobrava de uma mesada. Quando instalei internet a 128 kb em casa, fiz-me membro da sua mailing list e fui coleccionando edições, colaborações e um saber quase enciclopédico de tudo o que fazia.

Com os anos amontoam-se discos, livros, filmes, revistas, recortes, edições limitadas e rapidamente chego à conclusão que Cave esteve presente e ofereceu a banda sonora a quase todas os episódios importantes que vivi, foi aquela referência que sempre me guiou e acompanhou e que nunca conheci pessoalmente (apesar de o ter visto ao vivo mais de uma dúzia de vezes).

Após os icónicos Let Love In e Murder Ballads e do magistral Boatman’s Call, arrefeci os ânimos com os seguintes No More…  e Nocturama, mas o duplo Abbatoir Blues/The Lyre of Orpheus reconciliou-me. E se Dig Lazarus Dig me passou quase ao lado porque andava embeiçado com o seu projecto Grinderman, seguiu-se depois um hiato onde tudo mudou com a morte do seu filho.

Ninguém consegue imaginar a dor e o sofrimento de perder um filho em tão terna idade e Nick Cave tem reagido, usando a música como arma e, quando tudo estava alinhado para sentir ainda mais o que escreve e canta, comecei a sentir uma pequena batalha entre a ideia da criação artística e o que sentia pelo criador.

Não está em causa a dimensão do criador, que é inabalável, mas quando toda a percepção da obra é moldada pela reacção à perda senti (egoisticamente) que não queria, ao apreciar a sua obra, ser levado a sentir “pena” dele. Queria continuar a ouvir um tema ou um disco sem qualquer pressuposto e manter a total liberdade interpretativa.

Se é verdade que este novo e atmosférico Ghostseen tem momentos de uma beleza sublime, sinto sobretudo (e por culpa minha) a falta de um distanciamento da realidade que o abalou para poder voltar a ouvir a sua obra sem qualquer condicionalismo. Na minha cabeça uma Brompton Oratory  ou uma  Whipping Song já transcreviam, provavelmente sem quaisquer factos reais associados, histórias de perda numa construção de circunstancialismos que a vida nos pode trazer e para os quais Cave sempre foi um dos melhores conselheiros (tanto pelas palavras, como pela música).

Talvez por isso, hoje, oiça e goste do que vai lançando mas me prenda mais na Red Hand Files onde Cave fala com os seus fãs directamente sobre os mais variados assuntos e se assume, cada vez mais, como uma das maiores figuras de sempre na cultura pop rock.

Em Abril, se tudo correr bem, lá estarei de novo para mais uma grande cerimónia ao vivo.