Opinião
Justiça Social para quem?
Estamos mais uma vez a perder uma pedra basilar do nosso país: a proteção social
Inclusão social. Neste governo parece apenas um chavão, uma expressão bonita para usar em campanha e em discursos. Porque na prática o que se denota é uma soberba, de cima a falar-se dos problemas que não se conhece aos que estão cá em baixo a sofrer.
Do que falo? Da nova Prestação Social Única (PSU) que entrará em vigor a 1 de janeiro de 2027. Mais uma vez uma ideia bonita que na teoria parece simplificar e ser mais eficiente. Mas na prática para já parece ter muitas falhas e lá está, excluir muitos portugueses do seu acesso. E pior, estigmatizar os mais fracos e colocar em situação ainda mais vulnerável os mais desfavorecidos.
Temos até janeiro do próximo ano para repensar antes que isto seja mais um fracasso. Fico sempre com a ideia de que a casa é construída de cima para baixo e que, quem está no terreno, não é ouvido e as medidas não são pensadas para resolver problemas de quem atua todos os dias na área social. Ou então até começam por ouvir e depois começam a inventar.
Porque a medida de colocar adultos entre os 18 e os 66 anos com incapacidade inferior a 80% obrigados a 15 horas de trabalho “voluntário” para ter acesso à prestação, é de quem nunca esteve com alguém com este género de incapacidade e de quem não conhece a realidade das instituições.
Coloquei voluntário entre aspas porque se é um requisito obrigatório, já não é voluntário mas sim forçado!
Será que quem pensou nesta medida tem noção do que é ter autismo, doença mental grave ou cancro?
Mais uma vez se pede tudo aos cidadãos e se dá muito pouco. Estamos mais uma vez a perder uma pedra basilar do nosso país: a proteção social.
Porque o cidadão tem deveres mas o Estado isenta-se do seu dever de garantir médico de família, acompanhamento em saúde mental ou vagas nas creches. Como ficamos? Com uma pseudomedida para tirar com as duas mãos? Com uma forma encapotada de não dar acesso à medida e poderem dizer que pouparam não sei quantos milhões ao Estado? E os problemas sociais que serão criados na sequência disso? Quem lidará?
É que isto que acontece quando seguimos discursos populistas.
Aliás isto faz-me lembrar um mau exemplo dos EUA. Uma amiga minha viveu lá alguns anos e dizia-me que o sonho americano era só balelas.
O sonho americano não tem qualquer proteção social. Uma pessoa com cancro que esgote o plafond do seu seguro de saúde tem duas escolhas: ou morre e mantém a casa ou vende a casa para pagar os tratamentos e acaba a viver na rua.
Eu questiono: é para aqui que vamos?
Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990